Eram apenas notícias

 


Não é por acaso que nos deparamos diariamente com relatos dos eventos mais trágicos e sanguinários deste século. A sua brutalidade marca o nosso quotidiano e molda a perceção das nossas vidas, muito por culpa dos conflitos armados que parecem não ter fim à vista, sendo estes mesmos alimentados pelo ódio fomentado ao longo de séculos fruto de divergências religiosas, políticas e, sobretudo, de uma guerra desmesurada de egos.

Em épocas de crise necessitamos mais do que nunca de imparcialidade e de racionalidade. Nós, consumidores e cidadãos mundiais, deveríamos acreditar em órgãos informativos de confiança, órgãos em que os seus princípios assentem na verdade dos factos e não na verdade das opiniões, por mais sedutoras que estas nos pareçam, seja pelo seu conteúdo, seja pelo prestígio do seu autor.

Porém, a junção de informação com opinião parece ocupar cada vez mais as páginas dos jornais e as horas nobres das televisões. A necessidade de parcialidade tornou-se perigosa e traiçoeira. Perante factos, somos cada vez mais inertes ao pensamento crítico, deixando de procurar entender mas simplesmente reagir.  Com isto surge a pergunta: mas então as capacidades cognitivas do ser humano estão em causa? Sim e ao mesmo tempo não.

Por um lado, tornámo-nos lânguidos nas análises que fazemos fruto do imediatismo e das respostas procuradas sempre para o dia de ontem. Mas sem dúvida que as instituições que deveriam assegurar um dos maiores pilares democráticos, o jornalismo (que nos fornece direito à informação livre), prevaricaram e acenaram à onda populista. Criaram novas profissões, como aquela tão falada de comentadores, entidades supremas especialistas em generalidades inúteis que comummente se dedicam às intrigas políticas e sociais recorrendo a adjetivos e advérbios elaborados de modo astucioso. 

Os debates diários ocupam grande parte das nossas mentes. Em meros trinta minutos temos a sensação de dever cumprido, isto é, de termos absorvido toda a informação necessária para construirmos as nossas ideias e as nossas visões em relação a algo. Mas não é isso que de facto acontece. Apenas somos bombardeados com ideias pré-fabricadas, assentes em frases inspiradoras com que nos deparamos nas redes sociais.

A autenticidade humana é de certo modo colocada em causa. A argumentação torna-se vazia, efémera e redundante, o que facilita o trabalho daqueles que procuram o imediatismo e as soluções fáceis. É esta política de comunicação que alimenta o radicalismo, a arrogância e a polarização social como fenómeno global, facilitando a proliferação de ideias simplistas.

Se há cinquenta anos se lutava pela liberdade, conseguida com esforço e orgulho sob o nome da democracia, hoje, a nossa geração, a geração da tecnologia, da ciência e da inovação procura resolver um problema que parece querer degradar um dos pilares mais determinantes para o funcionamento de um regime democrático, o direito a uma informação livre. Na verdade, eram apenas notícias… e talvez fosse melhor assim.

Gustavo Magalhães

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