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"A-Venturas" deprimentes

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  Vivemos tempos de celebração. Chegou aquela altura em que os grandes “hits” dos anos 70 e 80 começam a completar quatro e cinco décadas de existência. Sucedem-se referências em jornais, “sites” e revistas musicais relativamente a uma das eras douradas da produção artística e da afirmação cultural de uma geração brindada com uma diversidade que será bastante difícil de alcançar. Num tom nostálgico de quem não os viveu, mas que gostava de o ter feito, assinalo os 40 anos do lançamento de um dos álbuns mais satíricos dos “The Smiths”, o notável “The Queen is dead” que muito furor provocou em meados de junho de 86. Falar da arte é também mencionar o estado social de um país. A crítica por mais mordaz e sagaz que muitas vezes nos pareça, é quase sempre prato principal. Comummente associada à vela que nunca se apaga, a esperança é um dos incentivos à produção e à concretização humana. Os diálogos e consensos assentam sempre numa base de confiança depositada na outra parte, nomeadamen...

Quase ondas de verão

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Paira no ar uma imensa dúvida. Estaremos em letargia? Definhamos assim tanto com o aproximar do calor e das metas que ainda temos de atingir. Será que nos tentamos refugiar no argumento de que o verão já está à porta e que por isso temos que parar e deixar o tempo correr? Ou devemos simplesmente enfrentar, sem remorsos ou inseguranças, obstáculos que teimam em obstruir, ano após ano, a nossa tão desejada "onda de verão?" A época balnear já abriu, as praias e os seus protagonistas já voltaram ao espaço público, referindo os perigos do mar, das ondas de calor e dos raios solares que nos obrigam a renovar a velha aliança com os fatores 50 desta vida. Retomamos o turismo de massa, os ingleses, os franceses ou os holandeses invadem Albufeira, enquanto os portugueses aguardam pacientemente pelo 15 de julho ou pelo 1 de agosto para retomarem a invariável expedição em tom de peregrinação pela A2. Mas até lá temos que aguentar, cumprindo o ritual das secretárias, das fábricas e dos ex...

A arte de negociar e de nada concretizar

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Em nove meses, muitas coisas mudam. Mudamos de casa, de cidade, de emprego, compramos um carro, lemos um livro ou vamos de férias. Procuramos opiniões, divergimos nos argumentos, aconchegamos dúvidas e dissipamos, por mais excêntrico que nos pareça, algumas certezas. Em contrapartida, guerras começaram, crises assolaram nações, conquistas fizeram o mundo parar e surpresas, essas, são quase o pão de cada dia. Mas nas entrelinhas, no essencial do coletivo económico e empresarial português, há abismos que aparentemente gostamos de continuar a perseguir. A reforma laboral tomou conta da agenda mediática, muito por culpa da urgência com que o executivo de Montenegro a fez chegar aos parceiros sociais, isto é, às centrais sindicais. A UGT foi na verdade a grande sócia em quem o governo apostou, mas de muito pouco serviu. A necessidade de protagonismo, a presunção e inclusivamente alguma futilidade continuam a servir algumas organizações corporativas que vivem do movimento político e do cumpr...

A queda com desejos de mudança

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Votar por exclusão de partes é como escolher a camisola que nos assenta menos mal. Desde da última vez que refleti sobre a atividade política e económica do mundo, muitos acontecimentos de extrema importância estiveram na discussão no plano nacional e internacional. Um deles prende-se com a histórica derrota de Órban e a categórica vitória de Peter Magyar nas eleições legislativas da Hungria, numa mobilização considerável de um povo exausto da opressão e sobretudo do autoritarismo que muito prejudicou o nível de vida daqueles que tentavam fazer do seu país um lugar melhor. Os números são bastante esclarecedores: 53% escolheu o líder do mais recente partido húngaro, o Tisza, liderado pelo homem forte do sistema que se divorciou do derrotado da noite, depois de vários anos a acompanhá-lo. Pouco menos de 40% manteve-se do lado do autocrático Órban, que prontamente no dia 12 de abril deste mês comunicou o seu falhanço eleitoral. Embora esta campanha tenha assentado, pelo menos do lado do...

Vontade de fuga

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  Vontade de fuga Fugir não é necessariamente um sinal de cobardia perante uma situação desconfortável, ao contrário do que muitas vezes se faz crer. Todos precisamos de um espaço só nosso, longe das imposições e das vontades alheias, sem qualquer tipo de pressão para que sejamos algo que não queremos ser. Perante as declarações e as intenções dos mais recentes protagonistas do plano internacional, não admira que cada um deseje, por momentos, afastar-se deste espaço comum. Os governos parecem descontrolados. Frases como “uma civilização inteira morrerá esta noite” não podem passar em claro numa altura em que assistimos a conflitos em diferentes latitudes, que muito prejudicam não só os próprios habitantes diretamente envolvidos, mas também aqueles que deles estão distantes.  Acordados de um conto que parecia confinado aos locais remotos de um mundo "perdido", os europeus constataram que de facto a situação não dá tréguas. As contas ao fim do mês complicaram-se, a distribu...

Viagens sem rota

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  Viagens sem rota Os viajantes têm diferentes interpretações do mundo, seja pelas suas convicções, seja pela forma como organização as suas viagens ou então pelas experiências que dizem alcançar em cada lugar por onde passam. E a liberdade de escolher onde se vai, com quem se vai e por onde se vai é uma das formas mais marcantes de usarmos um “modus operandi” que muitas vezes nem sabemos que possuímos: o de reagir sem tempo para pensar e seguir a boleia de um instinto que, de outra forma, dificilmente se revelaria. Estarmos por nossa conta é um debate muitas vezes contraditório. Para nos guiarmos pelos meandros de um mundo recheado de imprevistos, de mentes perversas, de inveja, de soberba e de ganância, é necessária uma grande força mental, uma frontalidade e uma personalidade capaz de se adaptar, capaz de resistir e de ultrapassar os dogmas criados pela pressão social. E sim, para nós, jovens, este é sem dúvida o grande desafio para os próximos anos. Caso contrário, os probl...

A arte de concretizar

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  A arte de concretizar “Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos”. A frase, atribuída ao filósofo John Locke, encerra uma verdade intemporal sobre a natureza da ação humana. Dificilmente seria um comum mortal a dizê-lo com a naturalidade com que Locke o proferiu. A genialidade de um pensador, de um jurista, de um engenheiro ou de um político não passa muitas vezes pela forma como pensa ou sustenta as suas ideias. É sobretudo na forma como as transmitem e executam que reside a grande arte da complexidade de viver numa sociedade. Num mundo marcado por uma crescente instabilidade, a distinção desta dualidade na forma de atuação influencia a decisão de cada um dos agentes, com profundas repercussões no funcionamento de economias. Intimamente ligados ao tema das guerras, ou dos conflitos geopolíticos, um novo termo ao serviço da linha de combate adotada pelos países, estão as cadeias de abastecimento, o fluxo de capitais e as redes log...

Posicionamentos estratégicos

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Posicionamentos estratégicos Todos pensam sobre o que se falará esta semana. É verdade que a opinião pública especula, diverge no essencial e necessita do tão ansiado confronto. Quando tudo parece incerto, visões anteriormente nítidas transformam-se em densas nuvens de dúvidas e incertezas sobre um futuro não tão longínquo como possa ser pensado.  Pedro Passos Coelho tem aparecido com maior recorrência no espaço público, o que motiva variadíssimas reações. Por um lado, a esquerda radical teme um discurso coerente a nível económico e social e o ímpeto reformista que sempre pertenceu ao antigo primeiro ministro. Por outro lado, a direita democrática, saúda, tal como eu, a presença de um dos melhores governantes do nosso país. A seu tempo discorrerei sobre os seus objetivos, as suas qualidades e as suas ambições políticas num momento em que é tempo de governar, produzir e pagar aquilo que devemos. Numa altura tão delicada para o mundo, fruto da fragmentação e essencialmente devi...

Desprezo pelo essencial

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  Desprezo pelo essencial Viveram-se dias conturbados. O país teve ruas inundadas que só agora começam a secar e entretanto já a nossa espuma mediática nos voltou a proporcionar opiniões prontas a serem servidas no imediato, alicerçadas numa argumentação frágil, vulnerável e pouco lógica. Reconstroem-se estradas, pontes, casas e de um certo modo a vida de alguns portugueses que, de um dia para o outro, passou de um céu sereno para um inferno ardente. A comunicação social, como já nos tem habituado, correu euforicamente para os escândalos forçados, uma vez que uma indignação bem preparada pode tornar-se um produto bastante apelativo nos dias que correm. Queríamos ação, sim. E houve excecionais exemplos, como foi o caso da ex-ministra Ana Abrunhosa, autarca de Coimbra que mostrou em poucos meses ter o perfil indicado para estas diligências. Mas o que confundimos nestas ocasiões é sem dúvida os sinónimos da palavra ação. Entra em cena a era gloriosa do novo desporto nacional de qu...

Futuro em tom nostálgico

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Futuro em tom nostálgico As figuras verdadeiramente marcantes da nossa história enquanto país são significativas para a nossa dimensão, mas, infelizmente, igualmente escassas. Note-se que a modéstia também é um traço nacional, sobretudo quando nos esquecemos de nos promover lá fora. O problema é que o reconhecimento internacional não tem acompanhado o talento português, graças à falta de desenvolvimento da nossa imagem internacional. Felizmente, há um domínio onde Portugal parece reunir consensos e um mediatismo inalcançável por qualquer outra área, sendo quase uma linguagem universal: o futebol. De Figo a Eusébio ainda se vai ouvindo qualquer referência, mas é Cristiano Ronaldo que abarca quase todo o peso de colocar o país no mapa- embora em sua homenagem, como sabemos, tenha sido feita uma estátua duvidosa num aeroporto remoto. Mas adiante, que a bola a rolar é um assunto fraturante que tende a despoletar mentalidades pueris nos especialistas de café. Escolheram o nome de Amália R...

Inverno de desencantos

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Inverno de desencantos Andamos todos escondidos. Chove há demasiados dias consecutivos, os ventos não dão tréguas e a humidade insiste em impregnar-se em tudo. Entretanto, vive-se uma calamidade em determinadas regiões do país e o pior é a ausência de consensos sobre as medidas a serem tomadas. Enquadramos, assim, esta época, ora como um marco no longo e doloroso inverno, ora como um tempo de reflexão e de recomeço para outros. Todos somos portadores de projetos. Uns encaram-nos com um rigor quase obsessivo, investindo em esforço e imaginação, outros limitam-se a concretizar aquilo que lhes é dado. À nossa maneira, descobrimos sempre uma forma de avançar quando nada parece querer dar-se a nós, ou quando a criatividade se esgota, por mais abundante que seja.  Janeiro atrás de janeiro, ninguém nos pode arrebatar essa capacidade de adaptação e persistência. Após um início de 2026 marcado por promessas incumpridas e desafios por enfrentar, emergem tempos de expectativa e falta de rumo....

Outras tempestades que perduram

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Outras tempestades que perduram "Um trabalho em contexto de invisibilidade". A expressão soa a refúgio linguístico: não explica, não resolve nem responsabiliza. Poderia ser usada num relatório ministerial guardado na mesma gaveta durante anos, podia também ser retirada de um daqueles testes em que o aluno, embora não domine o conteúdo da pergunta, demonstra uma curiosa queda para a engenharia semântica.  Quando é proferida por uma ministra no exercício das suas funções e em plena gestão de uma crise, auxiliada, em grande parte, pela figura de Montenegro, mais ativo e aparentemente sabedor da situação real do país, esta intervenção torna-se num exemplo bem ilustrativo da incompetência de Maria Lúcia Amaral. Se o governo tem feito os possíveis para amenizar os danos de algo imprevisível, alguns elementos demonstram bastante bem a falta de bom senso característico de uma determinada classe política em Portugal. Entretanto, o espetáculo prossegue. As caixas de comentários e...

Entre o silêncio e o vazio

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Entre o silêncio e o vazio O "Escrito na Pedra" encerra em si um conjunto de fascínios singulares. Convida-nos a refletir sobre personalidades e sobre os seus efeitos a partir de uma perspetiva diferente daquela a que estamos habituados. A materialização do pensamento perdura no tempo e na memória coletiva. Cada um de nos é o produto daquilo que conseguiu inscrever na nossa sociedade, seja através de uma obra de cariz solidário, de um espírito empreendedor que marcou uma determinada área de negócios ou, simplesmente, de uma frase capaz de atravessar gerações. Filosofar sobre dez ou doze palavras pode tornar-se, sem dúvida, numa das mais interessantes rotinas intelectuais que alguma vez experimentei.  Para quem não sabe, o "Escrito na Pedra" é uma espaço onde, diariamente, no jornal  Público,  são citadas palavras marcantes de uma determinada personalidade reconhecida socialmente pelo seu mérito ou protagonismo numa determinada área. Ao longo destas semanas, uma ...