O eterno cabo das Tormentas

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_da_Boa_Esperan%C3%A7a

A glória que Camões cantou, a língua que exaltou e o povo que unificou são elementos indiscutíveis do legado que uma figura tão impactante como esta pode deixar a uma nação, principalmente quando foi há 400 anos que o império português atingiu o seu apogeu. Depois de toda uma época marcada pela inovação científica e pela liderança acurada e firme em que este “pequeno” território foi o pioneiro nos descobrimentos marítimos, os tempos mudaram e as vontades também. Ou melhor, a vontade sempre lá esteve, o problema tornou-se a sua concretização. O diletantismo da nossa sociedade foi sempre o grande “calcanhar de Aquiles” desde do séc XVII até à atualidade 

Recordemos o domínio de toda a américa do Sul pela armada espanhola, em que Pizarro astutamente “abriu” caminho para que anos mais tarde Cristóvão Colombo pudesse concretizar aquilo em que se trabalhava há anos. Os portugueses sempre o fizeram de forma minuciosa, nomeadamente no que toca à relação comercial (bastante injusta diga-se de passagem) estabelecida com as tribos africanos ao longo de toda a costa atlântica. De arriba em arriba e de enseada em enseada muitos ficaram pelo caminho, mas muitos assistiram e participaram na construção de um dos maiores impérios de toda a história. Se no mar o leme estava bem firme, em Terra a economia do Reino era gerida de forma criteriosa, isto é, não nos limitávamos a poupar, mas sim em investir, uma das melhores formas de valorizar ativos. Porém, a Índia parecia o impossível e nós atingimos. Ultrapassámos o Bojador até passarmos as Tormentas. Desmitificámos verdades absolutas e tornámo-nos quase divinos.  E foi a partir deste momento que fomos iludidos, quase que vendados pela realidade em gesto de vingança. Fomos traídos pela humildade e aprisionados pela sobranceria e pela arrogância. Caímos no perigosíssimo lamaçal do ócio e do conforto de quem terminou a sua missão. Infelizmente, a ambição desmoronou-se como um castelo de cartas atingido por fortes rajadas de vento.

Se para muitos o mérito se comporta como energia que incentiva e como a maior herança deixada aos descendentes para continuarem o que já foi feito e alcançarem o que nunca foi alcançado, para nós, portugueses, apenas foi o maior presente envenenado que alguma vez poderíamos ter recebido. O cabo das Tormentas continua a arrastar-se ao longo do tempo, tal como uma sombra que se apodera de nós e que parece ser indissociável da nossa história.

Gustavo Magalhães

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