Folhas de despedida

 


Folhas de despedida

Cheira a outono. As castanhas começam a aparecer e quem as vende faz questão de o anunciar efusivamente. Aos poucos, recolhemos ao ninho — às nossas casas. Os dias tornam-se sucessivamente mais curtos, e o apelo do filme por ver ou do livro inacabado fala mais alto. Procuramos o refúgio da chuva que insiste em marcar presença. A nostalgia apodera-se da alma. Recordamos o verão que já partiu e projetamos o Natal e o fim de mais um ano — um limbo tão enérgico quanto solitário, tão nosso quanto de todos. Vive-se a estranha sensação de uma receção em tom de despedida.

Por outras paragens, há quem já tenha chegado e quem já tenha partido. Viveram o que tinham a viver e agora fazem as malas. O Natal será o último abrigo, o instante de aconchego, de memórias e de verdadeira devoção ao país. Os temas quentes esmorecem, tornando-se mais longos, mais sentidos. Damos outra importância ao que nos rodeia. Ficamos em casa, refletimos sobre os problemas e remoemos águas passadas — um hábito antigo desta estação. Voltamos aos mesmos dilemas, outono após outono. Somos humanos, e a rotina conforta-nos. Ter hábitos é uma forma de reconciliar dúvidas, resolver teimas, apaziguar dilemas. Mas sofrer recorrentemente pelo mesmo já não é lucidez - tornou-se prisão.

Os ciclos fecham-se quando parecem começar. E na Presidência da República, encerra-se agora mais um. Um ciclo marcado por convulsões, dúvidas, jogadas de último minuto e reviravoltas épicas. Uma porta que se fecha para o Professor Marcelo, o homem que guiou esta nação durante dez anos. Pelas suas mãos passaram António Costa e Luís Montenegro, uma maioria absoluta, uma geringonça, uma maioria menor e até uma maioria maior. Em Belém viveram-se pandemias, crises económicas, e os casos de Albuquerque, da Spinumviva e de Sócrates. Passou também por ele a ascensão da extrema-direita, roubando-lhe o protagonismo que sempre gostou de ter nas mãos. Ventura afirmou-se, o Almirante revelou-se, e Marcelo continuou — por vezes distante das polémicas, mas com o peso de uma fogueira que arde lentamente e deixa, no fim, queimaduras irrecuperáveis.

A palavra sempre foi o seu dom — e talvez também o seu fardo. Tentou, pela empatia, conquistar Portugal, agradar a todos e a todas. Fez da fotografia uma prova de vida; quis e conseguiu ficar na memória coletiva. Disse o absurdo como se fosse o mais sensato, cativou os jovens, apelou à paz. Defendeu o indefensável e geriu, com tato e cálculo, os tempos controversos do nosso século.

Agora, chega a hora de partir. De deixar o país que parecia à deriva em 2016 por um país que, mesmo próximo de reencontrar o rumo, ainda vive na incerteza. No último esforço, Marcelo exagera no que pensa e no que diz. Tornou-se, neste derradeiro ano, o maior comentador do país — o analista de si próprio. Fugiu da essência do Presidente: o trabalho silencioso, o bastidor que garante a voz segura e firme da nação.

Marcelo sente o outono como muitos de nós o sentimos: a indolência disfarçada de movimento, a apatia mascarada pela aleatoriedade das aparições diárias. O ciclo chega ao fim — e, como as folhas que caem, o Presidente prepara-se para ser memória.
E nós, que o vimos passar, ficamos com a sensação de que nenhum outono é apenas o fim. É também a promessa de uma nova vida que, ao que tudo indica, chegará em janeiro.

Gustavo Magalhães

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