Apertadamente só (parte 1)
Uma
segunda oportunidade
Encurralado em
filas intermináveis, o Ezequiel parte para uma verdadeira aventura. Aventura
esta em que não só desconhece os desafios e as adversidades que lhe esperam,
mas também não tem bilhete de volta nem sequer prazos previstos. Sendo a
primeira vez a solo longe do seu conforto, da sua rua, da sua mãe, do seu pai e
dos seus mais próximos, Ezequiel parte literalmente à deriva. Encaminha-se para
o mundo desenvolvido, o mundo das empresas, dos serviços, da arte, da cultura e
do consumismo, o mundo ocidental. Embora se sinta apertado, Ezequiel viaja
extremamente vazio, angustiado e desesperado ou como dizemos inúmeras vezes,
com o coração nas mãos.
Discutimos horas a
fio a integração do Ezequiel e de todos os "Ezequieis" espalhados por este mundo
fora. Pessoas que vêm de muito baixo, da pobreza extrema, de um “outro planeta”
onde os valores e os pilares essenciais para a formação de um indivíduo, como
educação, a família, a informação e a opinião livre são censurados por razões
autoritárias e tiranas em que determinadas entidades se julgam superiores aos
seus próprios conterrâneos. O afastamento destas pessoas em relação ao que
consideramos normal no desenvolvimento das nossas vidas é muito preocupante, em
primeiro lugar não por aquilo que estas mesmas podem interferir na nossa
próprias vivência, mas sim pelo desenrolar de um filme que nos conta histórias
hediondas e desumanas que desconhecemos ou preferimos ignorar, mas que chegados
a um ponto tal não conseguimos mais fechar os olhos e esquecê-las, fruto dos
valores democráticos a que felizmente já estamos habituados.
Mas a verdade é
que o Ezequiel deve ser acolhido da melhor forma por todos nós. Somos gente humilde e que veio de baixo, gente honesta e amiga do próximo que em
tempos já fomos o Ezequiel, numa altura em que aqui nos deparávamos com alguns
problemas parecidos, mas naturalmente numa escala diferente. O que não podemos
esquecer em simultâneo é que a partir do momento em que o Ezequiel contribui
para a nossa sociedade, os seus problemas passam a ser também os nossos. Ou
melhor, temos a obrigação de atenuar esta diferença e esta disparidade de
mentalidade entre quem acolhe e quem é acolhido, tentando proporcionar-lhe as
liberdades que para nós por vezes se tornar (infantilmente) enfadonhas, mas que
para muitos como ele são o caminho para uma segunda vida e o motivo pelo qual
procuram uma nova oportunidade.
Todo o problema da
multiculturalidade e da integração social é demasiado complexo para o resumir a
meia dúzia de parágrafos. Mas a elementaridade como a exposição da vinda do
Ezequiel para outro país em busca de uma nova oportunidade fomenta ódios e fomenta
a violência contra a inocência e a ingenuidade de quem nunca teve a possibilidade
de sentir e experienciar uma conversa livre, uma música tendenciosa (que também
elas fazem parte) ou então condições de saúde e de educação a que todos os
habitantes deste planeta deveriam ter acesso. Este espírito de compaixão e de
responsabilidade é parte integrante da nossa espécie, marcada ao longo de
séculos pelo convívio e pela partilha de visões que em muito contribuíram para
a construção de lugares únicos onde todos se sintam dignos.
A vida de cada
Ezequiel, marcada por dores e frustrações importa e deve ser valorizada por
quem o acolhe. É essencial reconhecer que se por um lado existe a urgência de
um acolhimento digno, este só será possível se quem o acolhe for devidamente
ouvido, compreendido e preparado para tal mudança. Não escolhemos os clubes e
não nos tornamos rivais, mas o facto de todos serem ouvidos é certamente mais
um indicador de que estamos no caminho certo para construirmos pontes sólidas,
duradouras e justas.
(continua na
próxima semana)
Gustavo Magalhães
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