Como quadros podem ser cruéis



 Como quadros podem ser cruéis

Mas afinal, qual a importância que um quadro pode ter na nossa vida? Quando partimos na nossa longa aventura escolar, deparamo-nos com o clássico quadro de giz, aquele onde tudo é escrito e por vezes nada é entendido. A letra redonda e legível escrita a giz marca o início da formação de ideias, de perceções e visões de algo não muito concreto mas bem mais  desenvolvido do que há um mês atrás de uma criança de 6 ou 7 anos- mas ainda longe de uma compreensão total . O quadro ensina-nos a desenhar toda a composição do abecedário com rigor, a perceber o que são números e a sua utilidade, ou então a mostrar-nos como desenhar o mapa de Portugal é bem mais fácil do que contar a sua história. Mais recentemente, percebemos que ele também nos pode ensinar o que é- de uma forma leve, educada e cruel… a loucura.

O protecionismo económico é uma medida difícil de tomar e sobretudo de aplicar. A aplicação de tarifas e de quotas é um sintoma de crise, de falência da capacidade competitiva e de uma supremacia da concorrência externa, não permitindo competir ao mesmo nível, em pé de igualdade. Perante o novo pacote apresentação pela administração Trump no início deste mês, lembrei-me da icónica imagem em que o atual presidente dos EUA expunha percentagens bem definidas como 67% ou 39%- provando o estudo aprofundado de como mais número menos número estes valores trarão prosperidade aos americanos. 

Vários países ou organizações como a União Europeia foram visados, sendo a sua oficialização acompanhada de uma pequena explicação, elucidativa, sagaz e pertinente para a prática em questão. Já a ordem da tal lista era lida de acordo com o estado de espírito do orador, especialmente quando referida a China. O sorriso de Trump era notório, mas creio que seria momentâneo, uma vez que em relação ao maior país da atualidade, o colosso asiático, é caso para se dizer que quem ri por último ri melhor.

O quadro político é bem menos inocente que o quadro económico, onde quem segura melhor o giz controla melhor a história e apaga aquilo que não lhe convém. Tal como na escola, havia professores que nos ensinavam a pensar e outros que nos ensinavam a aceitar sem resposta. No protecionismo de Trump, os números são protagonistas e vistosos, mas a lição a retirar está mais do que gasta: fecharmo-nos do mundo nunca foi gesto de força e de superioridade, mas sim um ato de cobardia e um sinal claro de medo.

Trump e toda a sua máquina partidária venderam aos americanos e ao mundo a ideia de que estas medidas ajudariam a proteger a economia e a vida desenvolvida dos EUA em relação à cobiça e à inveja internacional. Para mim, pareceu-me mais um rabisco no quadro de modo a esconder a fragilidade da economia americana e a clara ascensão chinesa e russa num quadro geopolítico bem mais desafiante. O resultado é preocupante, uma vez que todos pagamos mais, os mercados retraem-se e o abandono da sala de aula parece ser cada vez maior, aumentando a desconfiança em relação ao professor e ao que ele ensina.

Se há algo do qual nos apercebemos desde do primeiro dia de aulas é que nem tudo o que está no quadro é verdade absoluta. Às vezes é apenas propaganda bem escrita. O desafio está em, primeiro- pegar no apagador, segundo- enfrentar o pó, e terceiro- partir o giz para que outros possam ser, de forma livre e independente, autores de uma nova história, livre de amarras e de tabus.

PS.: Descansar também faz parte da jornada. Regresso com toda a energia dia 25 de agosto. A todos que nos leem, boas férias!

Gustavo Magalhães

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