Fogo que arde... e que se vê
Fogo que arde… e que se vê
Agosto é um mês feliz. O expoente máximo do calor, das férias, da praia e do modo despreocupado para muitos. Mas não para todos. Não falarei de amor, embora o célebre verso de Camões (“Amor é fogo que arde sem se ver”) quase me obrigue a isso. Enquanto tentamos forçosamente descansar e aproveitar as vantagens do alheamento que cobre todo este mês, deparamo-nos inevitavelmente com um tema que insiste em marcar o nosso verão: os incêndios.
A quantidade de hectares que ardem anualmente é excessiva (estimava-se quase 5% das áreas protegidas), especialmente quando falamos de um país tão pequeno mas tão rico em variedade de território, o que torna esta perda ainda mais dolorosa. Para quem já teve a possibilidade de conhecer cada recanto de norte a sul, creio que fica clara a mudança radical de relevo, conseguida através da passagem sucessiva de montanha para planícies. Neste ponto, falemos ora dos planaltos alentejanos que em nada são planos, ora da serra algarvia ora dos altos picos da beira e de Trás-os-Montes, ambos tão distintos, mas igualmente frágeis perante as chamas.
Ao abrirmos um jornal, as redes sociais ou muitos até a própria porta de casa, a pergunta é invariavelmente a mesma: porquê? Porquê agora? Porquê ali? Porquê sempre assim? Porquê não resolver? Embora a adolescência seja comummente associada à idade dos “porquês”, todos nós, miúdos e graúdos, nos questionamos. Será incompetência governamental? Serão os alertas tardios? Serão as festas populares a causa ou seremos o habitat natural da piromania?
Os pontos de interrogação são muitos, mas verdadeiramente o que nos preocupa a todos não são os culpados mas sim as vítimas: as florestas que albergam fauna e flora única ficam despidas, os profissionais sofrem dia e noite de forma atroz para nos proteger do terror do fogo são o reflexo da exaustão provocada pelos temíveis tons de laranja e vermelho. E sem esquecer o que mais nos rói por dentro, encontramos famílias destroçadas, despidas de bens, de memórias, de lutas e de alegrias e repletas de frustração e de revolta.
A desertificação do interior será uma das peças a tocar nesta discussão infindável. Os velhos ficam, os novos saem, o trabalho escasseia e a esperança morre paulatinamente. Os terrenos abandonados multiplicam-se e a responsabilidade- um dos maiores sinais de vitalidade social- é esquecida cobardemente por quem nos governa ao longo de décadas. As autarquias ocupam-se com a execução de fundos da Europa, a plantação de eucaliptais, a construção de rotundas e de estradas inúteis, ao invés de promoverem a revitalização do Portugal profundo a que todos devemos estar gratos .
Promovemos a limpeza de matas, sendo a sua sanção mais benéfica que o próprio cumprimento da lei. Aparentemente, condenamos a falta de meios e a falta de execução do plano estratégico, mas apenas escondemos a realidade: estes apenas remedeiam, nunca previnem.
Entre o agito do litoral e a melancolia do interior, somos invadidos pela mesma história todos os verões. Se agosto é o mês da felicidade para uns, para outros continua a ser o mês em que o fogo arde sem nunca se apagar.
Gustavo Magalhães
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