Cortes que nos fazem desconfiar



Cortes que nos fazem desconfiar

É verdade que andamos entretidos com outras coisas. As eleições presidenciais estão já aí (janeiro) e até parecem ser antes das autárquicas. Ainda não sabemos se André Ventura apagou um ou mais incêndios, se as férias de todos os membros da assembleia decorreram de acordo com o esperado ou então se a Mariana Mortágua chegará ilesa a terras de conflito. Mas algo mais se passa.

Desde aquela vitória caída do céu em que ficámos a conhecer um jogador chamado Éder, a verdade é que os franceses caíram ainda mais na nossa consideração. Soube-se, portanto, no decorrer da semana passada, que a França irá mergulhar mais uma vez numa crise política, provocada essencialmente pelo corte de 44 mil milhões de euros que François Bayrou perspetivou para o orçamento de 2026. O descontentamento e a crítica subiram de tom, nomeadamente quando o atual primeiro-ministro anunciou o congelamento de pensões e de prestações sociais, a eliminação de 2 feriados nacionais e cortes radicais nas despesas públicas.

Seria de esperar tal facto, uma vez que quem sofre um golo daquela forma, naquele estádio e naquele minuto dificilmente poderia não entrar numa crise- dizemos nós, mestres da gestão e da solidez política. Mais uma vez, o problema continua a ser o corte. Se no primeiro caso ele não apareceu- e ainda bem para nós, caso contrário, a bola, nunca teria entrado-  no segundo, a força foi excessiva, empurrando muito provavelmente Bayrou para fora do governo francês, pois a moção de confiança marcada para dia 8 do próximo mês de setembro será certamente chumbada pela extrema-direita e pela esquerda radical.

Os indicadores económicos são claros: as obrigações francesas a 30 anos atingiram máximos históricos, o CAC 40 -o índice bolsista que reúne as 40 maiores empresas de França- caiu 3% na última semana, afetando naturalmente o BNP Paribas e o Société Générale, dois dos principais bancos gauleses.

O défice encontra-se em 5,4% do PIB, tendo as medidas sido tomadas de modo a diminuí-lo para 4,6%. Porem, dos 577 lugares disponíveis, Bayrou conta com o apoio de apenas 210 deputados, despoletando forte oposição às drásticas medidas propostas.

Numa altura em que a Europa procura de novo o seu lugar no contexto internacional, França demonstra fragilidades gravíssimas que afetarão certamente este processo de reinvenção do mundo ocidental, sem ser descartada a intervenção do FMI (Fundo Monetário Internacional) segundo alguns economistas.

No fundo, tudo se resume à velha questão: quando a política se perde em cortes cegos, quem acaba sempre por pagar a fatura são os cidadãos. Um país como França, que tantas vezes foi motor do projeto europeu, arrisca-se agora a ser o seu travão, mergulhada em instabilidade social e política, fruto de uma crise económica previsível para muitos.

Entre o “canibalismo” político, mercados instáveis, investidores descrentes e uma população cada vez mais revoltada, o que está em jogo vai muito além de um orçamento — é a própria capacidade de um país se reinventar e de encontrar soluções sem destruir aquilo que o sustenta. E aí, convenhamos, não há corte que resolva.

Gustavo Magalhães

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