Política de fast food
Política de fast food
Quem não gosta de hambúrgueres levante a
mão. Esta frase faz-me recordar as sondagens que fazíamos propositadamente na
nossa infância só para julgarmos aquele “ amigo ronhoso” que sabíamos que não
gostava e que por isso iria ser excluído da trupe da carne de vaca.
Embora não seja pelas melhores razões, os
hambúrgueres estiveram na ordem do dia. Isto tudo porque André Ventura, a mais
caricata personagem da vida política em Portugal é sucessivamente alvo de
escrutínio. Cada passo em falso, cada suspiro, lágrima ou vídeo é analisado ao
detalhe. Uns porque veem ali o seu herói, imune à trovoada, à seca e ao sistema
capaz de devolver o reino ao povo. Já a comunicação social procura
obsessivamente encontrar o detalhe esquecido para atacar, ferir e
descredibilizar- algo que no meu entender é um erro bastante sensível e
contraproducente.
As festas na Alemanha são divertidas, até
porque, convenhamos, as salsichas não são tudo. Marcelo Rebelo de Sousa
deslocou-se à festa do cidadão e Ventura não poupou na crítica. Enquanto
percorre as televisões e jornais explicando o “mal dos outros”, esquece-se
muitas vezes de pensar no que vai dizer. O trabalho aperta, as missões
multiplicam-se. Já Marcelo goza os últimos dias longe de Belém, alheado da luta
dos seus sucessores.
O episódio contou com memes e piadas
habituais que nos devem fazer refletir sobre o ridículo que se apoderou da
nossa classe política- e da ignorância cada vez mais precoce na sociedade. Se
quem nos representa fala sem pensar, imaginemos o que se passa diariamente por
aí. A ânsia de dar prova de vida, mostrar que se é útil e que se compreende o
que se passa é radicalmente diferente de há 20 anos- e não necessariamente
melhor.
Depois do ruído, o silêncio. Com os olhos postos na trágica morte da
Glória, no assassinato de Kirk ou na greve brutal que paralisa França,
esquecemo-nos rapidamente da dúvida que pairava: Ventura será mesmo
candidato? Pela oitava — sim, oitava — vez em seis anos, André
Ventura avança para eleições.
Numa das justificações mais bizarras, disse que avança contra a sua
vontade. Como quem faz um enorme sacrifício pela pátria. Esperou por Passos
Coelho — que, como se sabe, não avançou — e sentiu-se forçado a disputar, uma
vez mais, o mais alto cargo da nação.
A apreensão é grande, especialmente quando
se fala de alguém tão perigoso como Ventura. A forma sagaz como diz o dito por
não dito, que finta os jornalistas e manipula a opinião pública deixa-me
extremamente expectante para o que aí vem. Quanto ao resto, persiste em mim 1)
se Passos Coelho algum dia gostava de ser apoiado por Ventura e 2) Será que
Ventura estará com inveja de não ser convidado para festas, perdendo a
oportunidade de ser o centro do arraial? São questões que espero não terem
resposta, caso contrário teremos uma festa em que os hambúrgueres serão
servidos nos pratos do costume: quentes, rápidos e mal digeridos.
Gustavo Magalhães
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