Sem ingénuos, o que seria de nós?
Sem
ingénuos, o que seria de nós?
Tenho-me debatido
muito interiormente nos últimos tempos. Parto numa discussão, com amigos ou
em família e invariavelmente não me lembro do dia, do ano ou dos próprios
intervenientes de um acontecimento marcante. Enquanto que os mais velhos se
refugiam num silêncio constrangedor, lembro-me que no meu bolso mora a
resposta, com renda paga, água e luz em dia. Acho fácil de mais, mas a tentação
é muita e a ânsia de responder primeiro e melhor (note-se a ordem dos adjetivos)
leva-me a cometer um grande erro de encarar o ecrã milagroso que muito
arrependimento provoca.
“Fomos
ingénuos.” Foi com esta frase que Pehrson, antigo ministro da Educação da
Suécia, resumiu numa entrevista recente o falhanço da digitalização massiva do
ensino. Um projeto que, no início dos anos 2000, parecia visionário, acabou por
se revelar precipitado. Faltou bom senso no progresso. Na ânsia de colocar
tecnologia em todo o lado, esqueceu-se o essencial: o contacto humano, o papel,
a caneta, o traço de um “A” ou o desenho de um triângulo.
A Suécia e o mundo
nórdico em geral são um barómetro reconhecido do progresso e da modernidade. Na
vanguarda dos princípios liberais, Pehrson defende um retrocesso total. É
curioso que, um dos grandes arquitetos da inovação, refira que o domínio cada vez maior das
autocracias desperte ainda mais a necessidade de formar jovens críticos, livres
e preparados para a manipulação exaustiva . A educação é a base, a água da
sociedade. Sem ela, não nos vale de nada lutarmos pela igualdade ou pela
prosperidade, pois é na escola que estas se conquistam.
Se
dentro da sala os problemas já são enormes, a começar pelo facto de muitos
ainda esperarem pelos computadores que chegariam brevemente para as aulas em
casa da famosa epidemia Covid-19, quando
partimos para os intervalos, vividos na maior parte dos dias do ano ao ar
livre, o cenário não é de todo mais animador. A minha geração recebeu o
telemóvel cedo, sem dúvida. Mas ainda experimentámos os arranhões, joelhos negros, zangas e
reconciliações num campo improvisado de vinte ou trinta metros que acabava com
um portão a fazer de baliza e uma bola de borracha. Lembro-me do sabor agridoce
dessas vitórias e derrotas, e é isso que me faz olhar hoje para as crianças com
um certo peso na consciência.
Temos a
responsabilidade de lhes fazer ver que lutar, empurrar e discutir faz parte do
crescimento. Sermos frontais é uma
virtude e esta não se alcança se nos escondermos atrás de um ecrã repleto de
anormalidades fascinantes, de opiniões manipuladas e sem nexo. É no exercício
de pensar, livres de dogmas e de ideias pré-fabricadas, que se busca a
verdadeira liberdade e essa parece cada vez mais distante das novas gerações.
Enquanto alguns tentam recuperar e admitem ter sido ingénuos, outros recusam-se a propor e atiram-se a criticar. O risco é claro: tal como aqueles que procuram a resposta rápida num vídeo de tik-tok, Portugal e outros continuam inertes, a correr atrás do prejuízo. E se assim for, talvez um dia já não haja tempo para recuperar.
Gustavo Magalhães
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