"Sou porque tu és"

 


“Sou porque tu és”

Foi há 52 anos que o mundo perdeu um mestre dos versos, um fingidor do amor como sentimento e um compositor da arte escondida de amar. Destruiu muros opressores, derrubou barreiras frontais e cruéis que muitos dissabores lhe causaram. Foi mestre das palavras e das pontes, permitindo a união de muitos em torno da literatura castelhana. Julgado pelo sistema político e social, nunca se deixou derrubar. Os seus ideais de liberdade, de justiça e de honestidade confrontam com os de hoje. Ricardo Eliécer Neftalí Reyes, ou simplesmente Pablo Neruda, deixou-nos a 23 de setembro de 1973, vítima de homicídio.

Não podemos apontar a falta de vozes. Todos gritam e vociferam, danados com o que têm e ambiciosos do que nunca tiveram. Falar não é tudo. Na verdade, de que serve falar se não se sente? De que serve sentir, se não se ama, se não se luta pelos outros? Em tempos de guerra, pede-se esclarecimento e taticismo, frieza e maturidade. A nobreza de caráter, a certeza da sinceridade, marcam quem nos marca. Perseguem-nos diariamente, ofuscam os defeitos e enlevam a força de espírito. Neruda, fraco na atitude, marcou o papel com tudo o que tinha para dar – e o que deu ficou tão marcado em nós que ainda hoje o citamos.

Abriu as portas da felicidade. Abriu a alma ao ódio e à crueldade humana. Aproveitou cada sílaba ingrata e transformou-a em palavras de afeto e paixão. Elucidou a violência, mostrou-lhe o caminho da felicidade e da paz. Defendeu quem precisava e quem nunca precisou. Militou pelos ideais, pela busca da glória e pelos direitos de todos. Não cuidou de quem devia; abandonou a filha que padecia de uma deficiência. Defendeu Marx como ninguém, lutou pelo povo, procurou a utopia. Era um sonhador, um criador de contos de fadas — alguns deles bem reais. Prescindiu dos seus para dar aos outros — ato tão condenável quanto louco. Versou a alma desumilde.

Concordar com “eles” é o pior que podemos fazer. Pensemos nas vírgulas, nas consoantes, nas vogais que persistem no nosso ouvido e esqueçamos o lado lunático e alheado da sua vida. Perdure a ética das palavras, e não a das ações. Sintamos o que nos deram, e não o que nos querem dar.

Neruda foi um sonhador. Um poeta na essência, um comunista na forma e um egoísta na vida. Saber separar o trigo do joio não é apenas uma técnica rudimentar, mas sim uma das lições mais marcantes da vida. 

Falta-nos Neruda. Falta-nos paz, liberdade de dizer e de pensar o oposto. Nas nossas mãos não está tudo. “Podes cortar todas as flores, mas não podes impedir a primavera de aparecer.” Que não nos calem a palavra, nem a esperança. Porque enquanto houver voz há memória e enquanto houver memória, há sempre primavera a caminho.

Gustavo Magalhães

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