Andar às aranhas

 


Andar às aranhas

Já perdi muita coisa. E, verdade seja dita, andar às aranhas é do piorio: quase sempre resulta numa mistura pouco saudável entre fúria e calma forçada. A serenidade deveria imperar nos momentos iniciais — é ela que sustenta qualquer processo de busca —, mas quando nos apercebemos da verdadeira dimensão do problema, quando percebemos que veio para ficar, é quase inevitável libertar o demónio que guardamos cá dentro. E, nos casos mais graves, lá surgem os impropérios de que mais tarde nos arrependemos (ou não).

Já aqui falei de Marcelo e da sua indolência. A verdade é que acabou refém da própria fama, dos louros que durante anos atribuiu ao seu desempenho como chefe maior da nação. Mas agora, mais difícil do que a sua saída — que, ao que parece, será rápida e para bem longe, com destino à Califórnia — é encontrar quem o suceda. Se a direita disputa espaço com uma nova solidez, impulsionada pelo crescimento abrupto do Chega, a esquerda encontra-se mais fragmentada e irrelevante do que nunca, lutando não pela influência, mas pela sobrevivência.

E já lá vão vinte anos sem que um presidente de esquerda pise Belém. Demasiados anos sem uma figura que sirva de rumo não apenas a um partido, mas a uma ideologia, a um conjunto de cidadãos que já não se revê na direita dominante no Ocidente. O Partido Socialista, durante muito tempo, aproximou-se da caricatura da “esquerda caviar” que emergiu nos anos 2000 com o Bloco. Os mestres da função pública, historiadores e professores — tradicional núcleo da esquerda — perderam protagonismo e credibilidade ao cair no fosso entre o que defendem e o que realmente fazem.

O Estado começou a ser visto, não apenas como um patrão austero — que sempre foi —, mas como instrumento para alimentar quem pouco contribui ou quem, por vezes, não conhece as angústias de chegar ao fim do mês. E se há culpados na decadência da esquerda portuguesa, são António Costa e o seu eterno número dois dos tempos da geringonça: Pedro Nuno Santos, responsável por um dos episódios mais polémicos da política portuguesa pós-25 de Abril. Em 2015, Passos Coelho e o PSD tinham vencido as eleições; dias depois da tomada de posse, uma moção de rejeição uniu BE, PCP e PS para formar governo — uma solução que marcou profundamente o país e a confiança dos eleitores no sistema.

No próximo 18 de janeiro, as opções são muitas, mas sejamos honestos: apenas três candidatos têm reais condições de vitória — Marques Mendes, o Almirante e António José Seguro. Ventura pode passar a uma segunda volta, mas nunca será eleito fruto da taxa de rejeição perante a disputa direta com outro candidato. 

A entrada tímida de Jorge Pinto, do Livre, ou de Catarina Martins, já figura recorrente da política nacional, revelou-se, na minha perspetiva, um erro estratégico da esquerda. O PCP dificilmente poderá ser colocado nesta equação; se é para cair, cairá de pé. Mas a nova esquerda portuguesa deveria unir-se se aspira realmente ao Palácio de Belém. Só Seguro tem margem para disputar o eleitorado típico do centro democrático — aquele que alterna entre esquerda e direita e que, no fim, decide eleições. Mendes lidera as sondagens porque consolidou precisamente esse eleitorado, enfrentando simultaneamente o anti-sistema de Gouveia e Melo e o crescimento expressivo de Cotrim.

António Filipe, Jorge Pinto ou Catarina Martins deviam abdicar. Se a esquerda sonha voltar a Belém, precisa de se unir e não aprofundar ainda mais a divisão em que se encontra. Num momento político tão frágil, insistir em pequenas vaidades pessoais é um luxo que não se pode pagar. Uma das provas que a democracia nos tem dado é que a Presidência da República se conquista no centro.

Se a esquerda não encontrar coragem para convergir, não por idealismo, mas por sobrevivência, continuará a ceder espaço a quem soube astutamente ocupar o vazio que deixou. E sem surpresas, muitos como eu, fiéis à direita mas que reconhecem à esquerda legitimidade, observaremos não só a sua perda eleitoral mas também a erosão gradual no que toca à sua preponderância na vida política no país. 

Gustavo Magalhães

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