Se dúvidas havia, ficaram desfeitas
Se dúvidas havia, ficaram desfeitas
Haia celebra e a Europa aplaude com alívio
moral. Venceu a liberdade, a inclusão, a ecologia e sobretudo a democracia.
Destronou-se o populismo, o racismo, a incoerência económica e social e
devolve-se aos cidadãos o direito à diferença. De rosto destapado e de braços
abertos, o liberalismo neerlandês dá a esperança de que está vivo e bem capaz
de derrubar os extremismos.
É uma das surpresas do ano. Algumas
semanas depois da minha última crónica, regresso com uma das grandes vitórias
da democracia no mundo ocidental. O liberalismo social no seu estado mais puro
volta a respirar-se nos Países Baixos, fruto da vitória de Rob Jetten,
empurrando a onda extremista que há muito se impôs noutras latitudes e que
no sentido mais literal do termo tem devastado a Europa.
A razão venceu o grito. Combateu o facilitismo discursivo, as frases
feitas, os estigmas sociais, a anarquia e até mesmo o vazio ideológico. O D66
pode formar governo atingindo a maioria parlamentar necessária de maneira a
transportar o partido da extremista Geert Wilders (anteriormente no poder) para
a insignificância democrática e para a exclusão da negociação de leis.
Para quem não conhece, Rob Jetten vai tornar-se o mais jovem primeiro
ministro de sempre. Aos 38 anos assume-se como progressista, liberal e
homossexual. Defende a ecologia, a liberdade económica, os mercados livres, o
respeito pela diferença que se rege por normas internas ou então o acolhimento
de pessoas das mais variadas geografias dentro de padrões definidos.
Ainda assim, não partilho de todas as ideias de Jetten. O seu liberalismo social, por mais bem-intencionado que seja, por vezes confunde a abertura com permissividade e subestima os riscos de uma globalização sem limites. A sua visão ecológica e progressista carece, a meu ver, de maior realismo económico e de um entendimento mais profundo das tensões sociais que atravessam a Europa, enquadrando-se assim numa frente de esquerda moderna- à qual damos o nome de socialismo- da qual não sou adepto mas respeito democraticamente e ideologicamente.
Mas, apesar das divergências, há uma lição inegável: quando a moderação
vence, todos ganhamos. A democracia precisa de vozes diferentes, de debates
genuínos e de líderes que, mesmo com quem não concordamos, saibam preservar o
essencial — o respeito, a liberdade, o bom senso e que saibam sobretudo que o escrutínio
faz parte da vida política.
O que impressiona não é apenas a vitória eleitoral, mas a força
simbólica de um país que conseguiu colocar a moderação novamente no centro
do debate público. Num continente recentemente assolado por extremismos, os
Países Baixos lembra-nos que a democracia não é apenas um sistema de contagem
de votos, mas uma filosofia de convivência e civilidade. É a prova de que o
liberalismo, quando praticado com convicção, consegue equilibrar liberdade
individual, responsabilidade coletiva e proteção das minorias — uma equação que
muitos países ainda estudam à distância, fascinados e, por vezes, desconfiados.
Entre discursos de celebração, debates sobre ecologia e pactos sociais, o
eleitorado neerlandês mostrou que valoriza coerência, competência e capacidade
de diálogo. Se dúvidas havia, ficaram desfeitas: a moderação ainda é capaz
de vencer o populismo e de devolver dignidade à política.
Gustavo Magalhães
Bom pensão. Bem estruturado. Concordo
ResponderEliminar