As flores do nosso quintal
As flores do nosso quintal
As flores são, de facto, entidades
fascinantes. Arrisco afirmar que se não conquistam plena unanimidade em todos
os leitores, pouco lhes falta para tal. São elas que nos confortam, que
embelezam e dignificam aquela árvore que já só existe por mera indulgência
nossa, ou então que oferecemos em ocasiões especiais às mães ou avós, não
percebendo por vezes o simbolismo deste bonito gesto. Mas por trás desta visão
idílica existe uma realidade não tão romântica: os quintais - ou as jarras para
os citadinos. Foquemo-nos, porém, no seu habitat natural dentro das nossas
vidas humanas: os quintais.
Tanto trabalho nos dão, tantas dores de
cabeça, tantos arranjos, tantas horas ou tanto que despendemos para no final o
jardineiro nos dizer que não tem solução. As orquídeas, as rosas, os girassóis,
as estrelícias ou os malmequeres- todos únicos- exigem, no final de contas, bem
mais do que aquilo que aparentam oferecer.
O tempo não está para flores, até porque
essas ainda não sabemos se serão cravos vermelhos ou rosas brancas, questão
para a qual continuo sem resposta, embora a discussão tenha sido, no mínimo, bizarra. Celebrações à parte, a América sempre foi o quintal dos EUA. México,
Peru, Venezuela, Colômbia entre outros foram apelidados, durante largo tempo
pelos americanos, como as flores deste vasto quintal geopolítico.
Vítimas de uso e de desuso, de exploração
económica, de influências políticas ou então apenas afetadas por danos
colaterais de guerras comerciais, serviram de forma mais ou menos problemática
os interesses de Washington. O apoio de vários milhões de euros por parte dos
EUA à Argentina e ao seu líder Javier Milei- suspeita de corrupção há já largos
anos- fruto de uma dívida ao FMI (Fundo Monetário Internacional) de 725 milhões
sugere mais do que um laço diplomático entre ambos os países.
No seguimento das 33 páginas do plano de Estratégia e Segurança Nacional
apresentado pelo Estados Unidos, confesso a minha apreensão após a leitura do
documento e das entrevistas dadas por Donad Trump. Com “toque de autor”, Trump
“recomenda”, “alerta” e “motiva” a Europa a tornar-se melhor, diminuindo a Nato
e exaltando a fraqueza dos líderes Europeus. Paira no ar a inquietante
possibilidade de estarmos a ser alvo de espionagem, manipulação e
instrumentalização por parte da Rússia, tanto tecnológica como cientificamente.
É também notória a apropriação do velho provérbio “quem te avisa, teu amigo é”,
que atravessa o discurso incongruente do líder norte-americano como se de um
selo de legitimidade se tratasse.
A perda identitária do Velho Continente é também alvo de severas críticas da atual administração. A proteção de fronteiras, “o continente” que “estará irreconhecível daqui a 20 anos ou menos” ou o possível fim do apoio americano à paz global surgem como promessas que roçam a ameaça. Os recados são deixados a Macron, Zelensky, Starmer e Merz. Todos estes enredos desta fábula com tom moralista fazem-me concluir que Trump apenas procura um bode expiatório para atingir os seus objetivos assentes no slogan “Make America Great Again”, para além do ressurgir da doutrina Monroe.
A intervenção militar na
Venezuela não se afigura distante. O bombardeamento de embarcações
venezuelanas, portadoras de quantidade significativas de cocaína, justifica
também a morte de tripulações inocentes no Mar das Caraíbas, sem qualquer razão sólida. Alegar a resistência para utilizar armas, neste contexto,
é claramente hipócrita. Abater tripulações por pura vontade de controlar ou por
gestos reativos e não racionalizados quando se trata de um país como os EUA não
pode transmitir segurança e sobretudo a ideia de paz perpétua que a atual
administração tanto proclama.
Toda esta narrativa, marcada por quintais e flores ou continentes e líderes, revela a mesma lógica silenciosa: quem detém o poder trata os outros como flores do seu jardim. O poder de mudar, podar ou arrancar não substituem a responsabilidade de cuidar. Caso sejam plantadas sobre domínio repressivo, as flores acabarão inevitavelmente por murchar. E assim vai a vida americana: querer florescer sozinha num quintal que, há muito, lhe deixou de pertencer.
Gustavo Magalhães
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