O preço da inércia e do orgulhosamente sós

 


O preço da inércia e do orgulhosamente sós

O título remete-nos de imediato para o slogan “Orgulhosamente sós” tantas vezes proferido durante a ditadura que durou mais de quatro décadas no nosso país. O curioso é que, apesar de tanto tempo decorrido, das inúmeras críticas e análises exaustivas de um dos períodos mais exigentes da história de Portugal, a frase continua a ecoar e a marcar a mentalidade de alguns. Tal realidade leva-me a pensar que, mais uma vez, a história não é um instrumento tão poderoso para orientar o progresso e para instigar à mudança social.

Sendo um dos países mais envelhecidos da Europa, Portugal tem de apostar na natalidade e nos incentivos que os países asiáticos já há muito promovem. Porém, tal não é suficiente para suprimir as dificuldades de mão de obra não qualificada. Verificamos, portanto, uma grande vaga de brasileiros, indianos, angolanos ou até mesmo ucranianos, sendo por ordem, as quatro nacionalidades que lideram a presença de estrangeiros no nosso país, tão essenciais ao nosso desenvolvimento.

Um dos temas que tem alimentado a agenda mediática da opinião pública é de facto o confronto cultural e a instrumentalização de discursos polémicos em relação a questões eticamente contestáveis e condenáveis. É como quem deita gasolina para depois incendiar- é uma questão de tempo até as chamas tomarem conta da operação e provocarem o caos e o pânico. Por vezes necessitamos de ponderação, racionalidade e sobretudo de atenção aos factos- contra os quais de diz impossível lutar, mas a que muitas vezes se oferece resistência e se rejeita por puro capricho.

A estagnação económica nasce, em grande medida, da falta de liberdade de ação. Adam Smith, liberal escocês e um dos motores do pensamento económico moderno dizia que o indivíduo tem competências e que as deve colocar ao serviço da sociedade seguindo a sua vocação. De pouco serve termos bons empreendedores se depois não nos proporcionam condições para criarmos a nossa empresa. Se temos jeito e gosto por carros porque não sermos mecânicos ao invés de seguirmos para o ensino superior?

Evidentemente que os prós são elevados. Toda a gestão implica responsabilidade, suportar custos, gerir insucessos, reputações e dinamizar diariamente aquilo que queremos oferecer aos consumidores. Aprendemos em simultâneo a lidar com conflitos, com os outros, a compreender a opinião alheia e a interpretar as exigências do mercado. Para além de tudo isto, a complexidade burocrática, os questionários infindáveis, a morosidade do serviço público ou os preços a pagar afastam naturalmente quem pretende criar valor em Portugal.

Numa recente palestra a que assisti, uma determinada figura política eminente no nosso país, a propósito da análise macroeconómica do recente OE aprovado na passada semana na Assembleia da República, dizia que a atração de capital e o fixar de empresas sobretudo para inovação e transição ecológica devia ser uma prioridade para Portugal. Sines conta já com uma das maiores produtoras de baterias de lítio a nível mundial, a Calb, uma empresa chinesa que está a construir uma fábrica perto de Setúbal que empregará, ao que tudo, indica quase 2 mil trabalhadores, contando com um investimento total de 2 mil milhões, com a participação do Estado português.

Os dados, porém, já não são novos nem sequer imprevisíveis, mas aqui vão eles: Portugal é o 9º pior país da OCDE na regulação de mercados e o 5º pior se considerarmos a União Europeia (UE). Não surpreende, assim, que espanhóis no Alentejo ou grupos chineses em gigantes como a Mota-Engil e a EDP ditem grande parte do rumo da nossa economia. Paralelamente, cerca de 20% dos trabalhadores portugueses dependem direta ou indiretamente do Estado, o que sobrecarrega as contas públicas e alimenta tensões que culminam em greves gerais. O Estado vê-se compelido- e ainda bem, pois o IRC é um dos mais altos da UE- a reduzir a carga fiscal  para garantir a competitividade empresarial, mas mantém bloqueios estruturais, como a elevada Taxa Social Única, que fragiliza ainda mais a sustentabilidade da Segurança Social — um dos pilares do nosso Estado social.

Portugal encontra-se assim num paradoxo histórico: desejamos todos o progresso, mas mantemos práticas passadas que nos condenam à inércia; invocamos a ambição europeia, mas agimos como se estivéssemos “orgulhosamente sós”. A incapacidade de reformar o sistema fiscal torna-se um entrave à dinamização económica e social a traz para o presente os mesmos problemas de sempre, a defesa das mesmas causas e a instabilidade que tanto nos aniquila década atrás de década.

 A dúvida que paira no ar é se desejamos continuar a pagar o preço da inércia ou de uma vez por todas, arriscar na mudança e na emancipação em relação aos dinheiros europeus. A resposta não depende apenas dos governos, mas de uma sociedade capaz de romper com o medo do futuro e de compreender que nenhum país cresce olhando apenas para o passado.  É caso para dizer: “Recomeça se puderes” (e quiseres).

Gustavo Magalhães

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