Por onde navegas?
Por onde navegas?
"Sozinho na noite, um barco ruma para onde vai". É assim que
Vasco da Gama, herói da nossa maior- e única- epopeia (escrita) é cantado pelos Xutos
& Pontapés. Evoca-se a temível noite marítima, as incertezas dos ventos
fortes trazidos pela vastidão do oceano, mas também a ilusão das sereias que
tentam desviar a Armada Portuguesa do seu grande objetivo: explorar o
inesperado. Urge a falta de tempo, de mantimentos, mas também de otimismo.
"Tentaram prendê-lo," mas quem já nada teme é sem dúvida "o homem
do leme".
A escrita tem este poder: cantar e celebrar a utopia, levantar o copo que
está, invariavelmente, meio cheio. No fim de contas, atinge-se de forma
corajosa, brava e imperial a glória, cumprindo os desígnios com os quais no
comprometemos. Mas nunca esqueçamos que, por detrás da glória, residem
falhanços, frustrações e desaires difíceis de digerir, sendo esses os
verdadeiros motores do conhecimento e da competição saudável rumo à
prosperidade.
Por onde navegas? É em gesto de pergunta retórica que início o ciclo acérrimo
das presidenciais, coincidindo igualmente com o fecho do ano civil no que a
crónicas toca. Com o aproximar das presidenciais- 18 de janeiro- começam a
dissipar-se as dúvidas quantos às competências mínimas que cada candidato
deveria apresentar para se mostrar disponível a ocupar o mais alto cargo da
Nação. Capacidade oratória, solidez na defesa de ideias, rigor argumentativo,
humildade intelectual, naturalidade no confronto ideológico e espírito de
diálogo são algumas das qualidades que deveriam constar do perfil do total de
catorze cidadãos que já manifestaram essa ambição.
O almirante- ou melhor- Henrique Gouveia e Melo, à semelhança da grande
parte dos que apresentaram a sua candidatura ao Tribunal Constitucional, sabe
bem o local onde pretende chegar, de seu nome Belém. Os caminhos, esses,
tornam-se cada vez mais estreitos para o antigo estratega da vacinação.
Numa tentativa aflitiva de recolher votos em todos os quadrantes políticos,
Gouveia e Melo disputa o centrão, o espaço eleitoral da moderação, não deixando
porventura de piscar o olho aos extremos do espetro político. Procura
consensos, envolve-se em disputas internas no Partido Socialista com Seguro e
comenta, de forma pouco clara, quem afinal “reina” no socialismo
português.
Questionado sobre o apoio do um ex-primeiro ministro, limita-se a
desvalorizar o papel do jornalismo e do escrutínio, classificando-o como
maçador. Realmente, perguntas incómodas são inconvenientes para quem não tem
respostas; castradoras para as ambições pessoais; ilusórias para os eleitores
e, no limite, sempre favoráveis ao sistema- do qual Gouveia e Melo faz parte,
não fosse o seu mandatário nacional Rui Rio, ex-líder social democrata.
Entre leituras de papéis ou tropeços nos próprios, Gouveia e Melo
apresentou-se respeitador e cordial no seu primeiro embate público,
curiosamente com Cotrim de Figueiredo. A partir daí, porém, apenas verificamos
a perda gradual na preferência das sondagens, enquanto que o liberal já lidera
a votação jovem. A pobreza ideológica, o vazio argumentativo ou o fracasso da
narrativa anti-sistema torna o antigo oficial da marinha como um dos potenciais
grandes derrotados do processo eleitoral.
É precisamente neste ponto que a metáfora inicial ganha novo significado.
Cotrim de Figueiredo surge, para muitos jovens, como a voz que recusa a
inércia. Falar de inteligência artificial, computação quântica, inovação e
mobilidade humana deixa de ser luxo intelectual para se tornar hábito no mundo
moderno. Discute-se exaustivamente a imigração, mas esquece-se quem abandona
diariamente o país em busca de uma vida melhor. Uma geração que parte não por
falta de amor à pátria, mas por ausência de horizonte. Um drama social que
agrava a crise demográfica e enfraquece a capacidade de Portugal projetar o seu
futuro- tal como um navio que perde, pouco a pouco, a sua tripulação.
E é aqui que regressamos ao homem do leme. Governar, como navegar, exige
mais do que destino: exige rumo. Gouveia e Melo vai resistindo à tempestade,
mas tal não chega. É quando o mar acalma que se procura firmeza e certeza dos
passos certos a dar para seguir o caminho trilhado. O verdadeiro líder não é
aquele que se limita a manter o navio à tona ou que profere frases feitas, mas
sim o que ousa traçar novas rotas, mesmo quando o nevoeiro encobre o
horizonte.
O almirante ainda procura a lição histórica que nos diz que os feitos se escrevem, por vezes, porque alguns tiveram a coragem de segurar o leme e de avançar. Mas o que temo verdadeiramente- e os versos não me deixam mentir- é que Gouveia e Melo perceba que, quando foge o futuro, infelizmente já poderá ser tarde demais.
Gustavo Magalhães
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