Entre o silêncio e o vazio
Entre o
silêncio e o vazio
O "Escrito na Pedra" encerra em si um conjunto de fascínios singulares. Convida-nos a refletir sobre personalidades e sobre os seus efeitos a partir de uma perspetiva diferente daquela a que estamos habituados. A materialização do pensamento perdura no tempo e na memória coletiva. Cada um de nos é o produto daquilo que conseguiu inscrever na nossa sociedade, seja através de uma obra de cariz solidário, de um espírito empreendedor que marcou uma determinada área de negócios ou, simplesmente, de uma frase capaz de atravessar gerações. Filosofar sobre dez ou doze palavras pode tornar-se, sem dúvida, numa das mais interessantes rotinas intelectuais que alguma vez experimentei.
Para quem não sabe, o "Escrito na Pedra" é
uma espaço onde, diariamente, no jornal Público, são citadas
palavras marcantes de uma determinada personalidade reconhecida socialmente
pelo seu mérito ou protagonismo numa determinada área. Ao longo destas semanas,
uma das edições deixou-me particularmente marcado. Nela podia-se ler: "Podes ver se um homem
é inteligente pelas suas respostas. Tu podes ver se um homem é sábio pelas suas
perguntas".
Montenegro manteve-se em silêncio após a derrocada
eleitoral que se vislumbrou na sede de campanha de Marques Mendes. Ainda que
surjam como pano de fundo, estas eleições- tal como qualquer outro ato
eleitoral- com exceção das legislativas, admitem sempre uma leitura nacional,
sobretudo pelas implicações governativas que podem desencadear. Implicações
essas que se tornam particularmente relevantes quando se traduzem em entraves
ao espírito reformista que tantos anseiam ver concretizado no nosso país. Neste
contexto, impõe-se concluir que o partido Chega se afirma como uma força de
oposição ao regular funcionamento democrático do sistema, impondo narrativas
estéreis e frequentemente pueris.
Durante a legislatura, o governo tem enfrentado
desafios de elevada complexidade. A aprovação do Orçamento de Estado, a
reforma laboral ou a lei de estrangeiros assumem-se como prioridades para um
país que tem necessariamente de se emancipar dos fundos europeus. A necessidade
de expandir o nosso mercado externo e de diminuirmos a dependência em relação a
bens fornecidos pelos EUA e pela China- sendo Europa altamente deficitária
neste domínio- acarretam encargos e riscos que não podem ser evitados mas sim
geridos. E para isso são necessários consensos com os partidos com maior
representação, entre eles o Partido Socialista e o partido chefiado por
Ventura.
A progressão social e a atratividade do nosso
território figuram entre algumas das metas delineadas por Joaquim Miranda
Sarmento na pasta das finanças. Há cerca de uma semana, o Executivo
deslocava-se a Sines para assinar um dos maiores contratos publico privados dos
últimos anos, com o intuito de aumentar a criação de emprego e de potenciar as
valências do país, entre elas a não massificação setorial e a discrição
estratégica necessária para que as multinacionais cimentem os seus públicos e
diversifiquem a oferta. Porque estar longe dos holofotes mediáticos é uma das
estratégias mais eficazes que países europeus e asiáticos podem e devem
aproveitar.
António José Seguro soma apoios e incentivos
provenientes das diversas áreas da direita. Manifestos, assinaturas e
mobilização estratégica são meios dos quais a próxima grande figura nacional
não se pode queixar. O país está com as suas ideias e com a sua vontade de chegar a
Belém e de resolver os problemas estruturais. "Saúde a tempo e horas"
e um pacto social são ideias fantásticas para uma sociedade prosperar. A
harmonia é um dos grandes prémios da humildade e da nobreza de caráter. Mas a
Seguro pode faltar a concretização de todo este cenário idealizado.
Entre a institucionalidade de Montenegro e de Seguro
estende-se uma grande distância. Porque se o primeiro, como já foi expresso
nestas linhas, cometeu alguns erros consideráveis na sua missão governativa-
uma delas a manutenção da ministra da saúde- mas mostra espírito para fazer o
país libertar-se das amarras socialistas, Seguro permanece imune a todas as
polémicas relativamente à inação, embora mereça, face à concorrência, a confiança de todos nós. Contudo, não se surpreenda o leitor, porque o
essencial reserva-se para o fim. Se o espírito reformista deve, de facto,
marcar a vida política de uma nação, então, os céticos- como eu- continuarão à
espera das próximas presidenciais. Do muito provável próximo Presidente da
República, arrisco-me a veicular: pouco ou nada sairá para transformar verdadeiramente
Portugal.
Gustavo Magalhães
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