Faltou cumprir-se Portugal


Faltou cumprir-se Portugal

O verso é de Pessoa mas o mote foi utilizado por uma das melhores campanhas políticas que testemunhei enquanto jovem atento, desde cedo, a estas andanças. Foram meses de alto e baixos, de dúvidas e polémicas, de entusiasmos genuínos e de tiradas verdadeiramente geniais. João Cotrim de Figueiredo permitiu-me assistir a algo que nunca tinha visto na vida política em Portugal: jovens com esperança. Não uma esperança vaga ou infantil, mas uma confiança informada de que o país podia ser diferente. Deu-nos coragem, tratou-nos como o futuro da nossa nação, defendeu sempre a liberdade sem medo e fez-nos acreditar que Portugal podia mudar- e para melhor. Isso, independentemente dos resultados, já ninguém nos tira

De uma noite que se avizinhava renhida, apenas saíram tristezas para muitos. A primeira, e talvez a mais inquietante, prende-se com a passagem do populismo à discussão pelo mais alto cargo da nação. A consolidação eleitoral já não é um desafio para Ventura: tornou-se um hábito feroz e estrutural para os próximos anos. O protesto, a desordem social e o clima de euforia entre as soluções fáceis e fantasiosas cai na perfeição numa sociedade acrítica, que se dá ao conforto do ócio e que sobretudo desconhece profundamente o sofrimento e a luta que a conquista da liberdade implicou aos seus pais, avós e amigos. A demagogia e o radicalismo passaram a integrar, sem pudor, o léxico de mais de um milhão e meio de portugueses. Não há nada a dizer quanto ao direito ao voto, pois o de cada um vale o mesmo, independentemente das origens ou estatuto, mas não somos obrigados a fingir surpresa perante as consequências.

Outras das conclusões foi a lição deixada a Marques Mendes e, por arrasto, também ao PSD.  A presença mediática não substitui o carisma, a liderança, a determinação e convicção para se dizer o que se pensa. A política é muitas vezes um jogo de bastidores e há muitos que se dão bem nele. Mas os eleitores fartam-se sucessivamente das intrigas e da falta de conteúdo das propostas trazidas para discussão. E Montenegro, nisso, foi um mero espectador que acabou por conduzir o grande espaço da direita democrática à insignificância nesta decisão, tendo os eleitores que votar numa visão para defesa de valores essenciais e não por concordarem com a visão proposta para o país.

Neste cenário empobrecido, António José Seguro emerge como o grande vencedor da noite. "Expulso" do PS há dez anos, regressou como figura de consenso para um partido órfão de liderança credível. Louvado por todo o partido, soube estar em silêncio quando necessitava e também quando lhe convinha. Jogou pela defesa, pela posição institucional, e apresentou-se como garante da estabilidade- sendo para mim uma espécie de Mendes da esquerda. Expôs-se menos, ficou na expectativa e utilizou o discurso agregador que raramente compromete. Teve uma prestação competente, disciplinada e eficaz e por isso saiu vitorioso por larga margem.

Sejamos igualmente francos: não gosto de André Ventura. A simplificação agressiva, a exploração sistemática do ressentimento e a instrumentalização do poder são do pior que podemos ter na nossa liderança. E se a escolha final se resume a Seguro com Ventura, isso diz pouco sobre uma vitória e muito sobre uma derrota coletiva. Pobre em ambição, curta em futuro e resolvida pela exclusão, não pela convicção. Seguro será uma excelente pessoa, um defensor a 200% da liberdade, mas representa um certo imobilismo na nossa sociedade que faz afastar tantos jovens das decisões chave do nosso país. 

A esperança que me alimenta é que a Campanha de Cotrim não foi em vão. Não ganhou, mas marcou-nos. Foi um raro esforço para elevar o debate, de construir ideias sólidas, numa visão do futuro e da realidade do que é ser um jovem neste país. Provou que o rigor intelectual ainda faz a diferença na vida política e elucidou quem nos governa que quase 900 mil portugueses confiam nestes valores. Fez-nos acreditar que era possível termos voz num mundo desigual onde é difícil conquistar, fez-nos Imaginar Portugal. E isto, num tempo de mediocridade confortável, é tudo menos pouco. Em meu nome e na voz de muitos outros: Obrigado João!

Gustavo Magalhães

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