Mentalidades efémeras
Mentalidades efémeras
“Eu fui um
Ronaldo”. Era esta a frase que, há uns anos, qualquer pai que se prezasse
queria ouvir do filho quando, aos 30 ou 40 anos, tivesse o corpo carimbado por
lesões, uma casa por pagar e nenhum trabalho que lhe garantisse sustento.
Entretanto, pensava eu — e muitos outros — que as mentalidades, mais do que
mudarem, tinham evoluído. Contudo, o primeiro-ministro, que defendi em muitas
ocasiões e a quem não retiro qualquer mérito pelo trabalho que tem vindo a
desempenhar no governo, foi profundamente infeliz na mensagem de Ano Novo
dirigida aos portugueses.
Lia-se nos
jornais que alguns dos mais conotados colunistas dispensavam a motivação
disfarçada de conselho transmitida no início deste ano. Agastados com um começo
de ano atribulado no plano da fragmentação geopolítica, fomos brindados com uma
reflexão pretensamente profunda sobre o grande profissional Cristiano Ronaldo.
Um dos desportistas mais bem-sucedidos da história, um dos 20 mais ricos do
mundo, segundo vários estudos, e um profissional de excelência- pelo qual tenho uma grande admiração enquanto futebolista.
O seu
encontro com Trump está já suficientemente gasto em matéria de crítica ao seu
comportamento. Refiro-me, antes, à sua ausência, até hoje inexplicada, no
funeral de Diogo Jota, enquanto capitão da seleção e figura marcante da nossa
história coletiva. A sua notoriedade e a marca CR7 acompanharão o nome de
Portugal para a eternidade. Mas celebrar a fama nada tem de relevante quando a
responsabilidade é descartada. Onde fica o humanismo? O egoísmo transforma-se
na culpabilização dos outros? Que exemplo é este para quem nasce todos os dias,
para quem ensina jovens a serem bons cidadãos e para quem trabalha e luta por
uma sociedade melhor?
O dinheiro é
extraordinário. O fosso entre Ronaldo e todos nós deveria ser motivo de
preocupação. A máquina de golos fatura, em 34 segundos, o que um português
recebe num mês de trabalho. Será justo? Claro que não — mas quanto a isso
Ronaldo não terá culpa. O problema reside em cingirmos a nossa existência
coletiva a uma entidade que já demonstrou desrespeitar o seu próprio berço em
detrimento do seu ego.
No plano
internacional, o paralelismo é inquietantemente evidente. Tal como no discurso
interno se relativiza, por vezes, a justiça social em nome do sucesso
individual, também no espaço mundial se coloca de parte o direito internacional
em nome do interesse estratégico. A soberania, a autodeterminação e os direitos
humanos tornam-se conceitos maleáveis, invocados apenas quando servem o
vencedor. Sob uma retórica de pragmatismo, altruísmo e inevitabilidade, esta
lógica agrava injustiças e aprofunda um clima de instabilidade e apreensão.
A justiça
deve ser exercida por quem tem competência para o fazer, embora saibamos que
pouco motiva a administração norte-americana a cumprir regras quando estas
colidem com os seus interesses. A soberania dos povos não é um prémio concedido
por potências, mas um princípio basilar da ordem internacional que, quando
relativizado, abre caminho à lei do mais forte e à normalização do caos.
Maduro é um
déspota. Um dos piores que o sistema político já produziu. Para além da
opressão, da violência e do clima de intimidação que grassava nas ruas de
Caracas e arredores, a própria sepultura nacional era cavada diariamente.
Detentora de riquezas naturais extraordinárias — petróleo, gás natural, ouro e
metais essenciais ao desenvolvimento tecnológico, como os usados em baterias —
a Venezuela viu as nacionalizações sucessivas de Chávez e Maduro tornarem o
sistema económico insustentável. Mas nada justifica aquilo que vimos acontecer na passada semana, tendo consequências nefastas para um 2026 de algumas decisões importante no continente americano.
Se
continuarmos a aceitar este empobrecimento ético — seja na política, no
desporto ou nas relações internacionais — corremos o risco de formar gerações
sem referências sólidas, incapazes de distinguir privilégio de excelência,
liderança de narcisismo e poder de legitimidade. Uma sociedade que abdica da
exigência moral aos seus líderes e ídolos abre apenas caminho às mentalidades
efémeras. Projetar um futuro coletivo e abandonar a luta pela mera
sobrevivência individual torna-se, assim, uma prioridade da nova ordem mundial.
Nota
editorial: Decidi
não refletir exclusivamente sobre os desenvolvimentos geopolíticos recentes por
falta de informação consolidada. A seu tempo, estimado leitor, contará com uma
análise mais estruturada e próxima do real, evitando a precipitação na leitura
de dados ainda incompletos.
Gustavo Magalhães
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