Um frio que não se aquece

 


Um frio que não se aquece

Desde que tenho memória, os Natais passaram sempre a correr. Tanta preparação para que, em menos de 48 horas, todas as rabanadas, sonhos, bacalhaus, perus e queijos da serra acabem reduzidos à insignificância do frigorífico. A noite dita serena, quente e de abrigo contra as inquietações interiores — alimentadas pelo início de um novo ano e pelo balanço silencioso dos últimos doze meses — marca-nos a existência. O Natal fica para a história, para o bem e para o mal.

Em poucas horas, muitos de nós já fomos vítimas de pequenos azares: ou a bateria do telemóvel ou a película do ecrã ou a internet de casa decidiram falhar quase em simultâneo. Pequenas avarias, dir-se-ia. Mas o verdadeiro incómodo não foi o problema em si — foi a certeza de que resolver implicaria pagar. Sempre pagar. Hoje, já não tememos partir o ecrã nem a incapacidade de cuidar do que temos; tememos o preço. O grande massacre do consumismo chama-se fatura. E contra essa, estou eu também. Arranjar custa, muitas vezes, mais do que comprar. Alternativas, essas, são cada vez mais escassas.

Pagar é o verbo de dezembro. Por mais que gostemos do conforto da lareira, das rabanadas ou dos serões com quem amamos, a lição que deixamos às novas gerações é invariavelmente a mesma: dar para receber. Mas toda a troca pressupõe utilidade e necessidade. E o Natal transformou-se, progressivamente, no seu oposto. Sedentos de paz após 1945, deixámos a cultura de massas atracar na segunda metade do século XX — e ela ficou. Hoje, dezembro é sobretudo um pilar da faturação anual.

Antes havia menos. Sabia-se menos. Procurava-se apenas o que pôr na mesa. Adornava-se pouco, via-se pouco floreado, pouco excesso. A camisa de Natal não se distinguia das outras. Lutava-se por um pedaço de broa e meia lasca de bacalhau. No campo, as festividades eram lentas: a meia-noite nunca mais batia. Até lá, rezava-se. Bebia-se vinho, roubado às horas de quem chegava cansado de mais um dia de trabalho. A melhor prenda era ter algo para tragar e mais uma oração para fazer — porque enquanto houvesse oração, havia esperança.

Hoje somos menos. Os filhos são menos. As refeições são mais fartas e as prendas tornaram-se hábito. Os embrulhos, arrisco dizer, são a oração de muitos — porque são o que mais há. Em muitos lares, na noite de 24, falta presença, aconchego, harmonia. Falta o primo, a tia, o pai. Servem-se batatas frias, sem azeite, como se o cuidado também tivesse entrado em contenção. O Natal tornou-se um pouco isto: um dezembro de mãos cheias e de muitos corações vazios.

Uma das grandes incongruências da sociedade atual revela-se nesta época. O dinheiro, escasso para tantos, impede alimentação digna, saúde e educação. Vive-se à sombra de um cartão, preso a uma lista interminável de despesas. Ainda assim, quando os enfeites sobem às paredes, fingimos que a dívida se cala. As poupanças surgem — muitas vezes emprestadas — agradáveis para quem financia, ilusórias para quem usa.

No fim, adoramos o Natal. Mas reconhecer defeitos não o torna menos nosso. Disseram-nos que receber é dar — e o princípio é nobre. Mas sem genuinidade, sem afago e sem apreço, tudo se torna volátil. O carrinho vai cheio. A alma, essa, pode seguir deserta. O preço real paga-se na ausência de quem se ama.

E enquanto o Natal for medido por uns pelo que se compra, dificilmente voltará a ser lembrado pela beleza da partilha que outrora o definiu. Porque os vazios por preencher podem doer mais do que a prenda que se desejava e não chegou.

Gustavo Magalhães



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