Desprezo pelo essencial
Desprezo pelo essencial
Viveram-se dias conturbados. O país teve
ruas inundadas que só agora começam a secar e entretanto já a nossa espuma
mediática nos voltou a proporcionar opiniões prontas a serem servidas no
imediato, alicerçadas numa argumentação frágil, vulnerável e pouco lógica. Reconstroem-se
estradas, pontes, casas e de um certo modo a vida de alguns portugueses que, de
um dia para o outro, passou de um céu sereno para um inferno ardente. A
comunicação social, como já nos tem habituado, correu euforicamente para os
escândalos forçados, uma vez que uma indignação bem preparada pode tornar-se um
produto bastante apelativo nos dias que correm.
Queríamos ação, sim. E houve excecionais
exemplos, como foi o caso da ex-ministra Ana Abrunhosa, autarca de Coimbra que
mostrou em poucos meses ter o perfil indicado para estas diligências. Mas o que
confundimos nestas ocasiões é sem dúvida os sinónimos da palavra ação. Entra em
cena a era gloriosa do novo desporto nacional de que muitos tiram
dividendos.
Vivemos numa era dos “achismos”, expressão
retirada do comentário astuto feito por alguns em plena praça pública. Na
verdade, tomos entendemos de meteorologia, geopolítica, desporto, direito,
economia ou saúde. Todos têm uma perceção, ou quanto muito uma vaga ideia. “Eu
acho que ele fez, eu acho que ele disse”. Ou então: “Parece-me, daquilo que
vejo, que se não disse, devia ter dito”. Nas entrelinhas, os factos tornam-se
um detalhe menor, ofuscado em grande parte pela enorme convicção pessoal,
insuflada como um daqueles balões dignos de aniversário pomposo.
Referimos temas complexos como quem fala
do estado do tempo: tem naturalmente a sua relevância, mas por um período de
tempo bastante restrito. Ao invés de questionarmos cenários inalteráveis,
poderíamos discutir os assuntos tais como eles são. Sem pontos pessoais, com a
independência e a sensatez de que muitos são portadores, mas que infelizmente
desprezam por terem vergonha de a exprimir. Porque tornou-se necessário vestir
a camisola, ser clubista e fomentar a rivalidade para se ser aceite. Concordar
e elogiar estando do outro lado da margem reflete fraqueza e a falta de coragem e
coloca em causa a competência de muitas figuras públicas. O que me deixa não só
incomodado, mas também apreensivo em relação ao peso que tudo isto transporta.
Nesta semana, foi nomeado um novo ministro
da Administração Interna, alguém que muitos desconheciam ou então que nunca
pensaram que poderia vir a pertencer a este executivo. Enquanto diretor da PJ,
Luís Neves não se inibiu de, em mais de uma ocasião, comentar e repreender
algumas declarações feitas por Montenegro e pelos seus ministros em relação à
sensação de insegurança e à criminalidade relacionada com a imigração. Fora
tudo isto, mereceu a confiança e, caso mantenha a competência e o
profissionalismo com que regeu a Polícia Judiciária, sem dúvida que aumentará a
eficiência deste ministério bem como a sua política comunicacional, responsável
pelas duas demissões anteriores.
No entanto, existem sempre contras. Todos
entusiasmados, muitos comentadores procuravam as reações de Ventura e dos seus
companheiros de partido. Porque sabem que raramente trazem para a discussão um
tom ponderado, sério e informado. Mas tudo isto se resume ao espírito tribal em que incluem tantos da nossa sociedade, que gostam da fratura, do drama
e da discussão, mesmo que as suas consequências possam ser nefastas para o
país. Escolher sempre um lado é, portanto, quase que uma imposição social, sendo
urgente lutarmos por ele, mesmo que se coloque em causa a humanidade, a
educação, a dignidade e o respeito, todos valores que devem reger as nossas
relações.
Não me cabe comentar determinados assuntos
por falta de informação, de pensamento ou então de imparcialidade. Porque o
contexto não pode jamais eliminar a responsabilidade individual. A mediocridade
tem vindo a expor-se, a meu ver, em espaços onde deveria imperar a honestidade
intelectual e o respeito pela diferença. Porque estes são valores de que
ninguém deve abdicar num estado de direito que se preze. Para além do cheiro a
bafio que muitos casos trazem à opinião pública, estes constituem apenas mais
uma certeza de que não temos a mentalidade certa para liderarmos projetos e
iniciativas que nos abram os horizontes. Porque a incoerência e a desonestidade
ainda persistem e continuam a contaminar muitos daqueles que deveriam ser os
primeiros a dar o exemplo.
Gustavo Magalhães
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