Futuro em tom nostálgico
Futuro em tom nostálgico
As figuras verdadeiramente marcantes da
nossa história enquanto país são significativas para a nossa dimensão, mas, infelizmente, igualmente escassas. Note-se que a
modéstia também é um traço nacional, sobretudo quando nos esquecemos de nos
promover lá fora. O problema é que o reconhecimento internacional não tem acompanhado o talento português, graças à falta de desenvolvimento da nossa imagem internacional. Felizmente, há um domínio onde Portugal parece reunir consensos e um mediatismo
inalcançável por qualquer outra área, sendo quase uma linguagem universal: o
futebol. De Figo a Eusébio ainda se vai ouvindo qualquer referência, mas é
Cristiano Ronaldo que abarca quase todo o peso de colocar o país no mapa-
embora em sua homenagem, como sabemos, tenha sido feita uma estátua duvidosa
num aeroporto remoto.
Mas adiante, que a bola a rolar é um
assunto fraturante que tende a despoletar mentalidades pueris nos especialistas
de café. Escolheram o nome de Amália Rodrigues, esse símbolo maior da nossa
cultura musical, onde se engloba o fado e toda a ladainha da saudade dos tempos
idos. Sim, não gosto deste género, não me identifico, não me revejo, não me
comovo e nem sequer reconheço a grande harmonia transcendente que muitos juram
ouvir. Mas negar o peso quase religioso que o fado tem num país onde as
tradições se perdem gradualmente- fenómeno que pode e deve ser generalizado
infelizmente- seria simplesmente absurdo. Agora, será tudo isto razão que
justifique colar o avanço tecnológico a uma nostalgia dos fadistas
em nome da nossa identidade cultural?
Para os mais desatentos, o “Amália”
será um projeto em que os utilizadores poderão pedir informações sem possibilidade de chat online, consistindo numa
replicação daquilo que os países nórdicos como a Noruega, ou então os Países
Baixos já desenvolvem, mas apenas para ser usado profissionalmente, por enquanto, de modo a partilhar documentos entre serviços. O projeto insere-se no modelo LLM- Large Language Models- que consiste num programa treinado para processar, identificar, compreender e interpretar
dados e transpô-los para a linguagem humana. São por isso projetos nacionais de
inteligência artificial com o objetivo de dinamizar e desburocratizar os
sistemas, nomeadamente da administração pública, facilitando o contacto de
várias entidades, tornando os processos rápidos e eficazes.
A “febre da AI” é já um termo clichê. E a
sua agressividade sobre empresas tem vindo a alastrar-se aos próprios
governos, que veem não só uma saída eleitoralista, mas também uma forma de
acompanhar as mudanças estratégicas que surgem como as únicas saídas para uma
UE cada vez mais virada para a inovação, fruto da perda substancial de mercado
tradicional.
A necessidade de aceder a arquivos e a
bases de dados mais tradicionais torna-se, portanto, um passo fundamental no
desenvolvimento deste sistema, uma vez que a informação deve ser colocada de modo a ser processada posteriormente. As associações de imprensa nos países
mencionados foram não só consultadas por parte dos criadores das respetivas
LLM- a Biblioteca Nacional, no caso da Noruega, é a responsável pelo desenvolvimento da inteligência artificial- mas também compensados em mais
de 4 milhões de euros pelo serviço prestado. A imprensa assegura a correção
linguística, a verdade dos factos e essencialmente a proteção de dados, numa
altura em que a linha entre a verdade e a mentira é extremamente ténue.
No nosso caso, espera-nos um PRR de 5 milhões de euros para aplicar a uma “Amália” ainda numa fase bastante precoce naquilo que se espera um caminho árduo até ao seu desenvolvimento. Com base nos exemplos, espera-se seriedade, sensatez e honestidade na execução deste montante considerável que nos colocará no lote de países que já adotaram esta medida, permitindo seguirmos no “comboio europeu” que por vezes nos parece distante. Mas não existem planos, por agora, de recorrer à comunicação social e sobretudo aos jornais para a construção desta grande base de dados.
Se “Amália” vier para facilitar a vida dos cidadãos, modernizar o Estado e
colocar Portugal num patamar competitivo de desenvolvimento de linguagem, então
é muito bem-vinda, seja com ou sem guitarra portuguesa como pano de fundo. Mas
se for apenas mais um nome sonante, ideal para justificar fundos europeus e
produzir relatórios guardados em arquivos nas estantes dos ministérios, então
não passará de mais um refrão nostálgico que canta o passado, enquanto o futuro
nos foge pelas mãos estendidas ao imobilismo.
Gustavo Magalhães
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