A arte de concretizar

 


A arte de concretizar

“Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos”. A frase, atribuída ao filósofo John Locke, encerra uma verdade intemporal sobre a natureza da ação humana. Dificilmente seria um comum mortal a dizê-lo com a naturalidade com que Locke o proferiu. A genialidade de um pensador, de um jurista, de um engenheiro ou de um político não passa muitas vezes pela forma como pensa ou sustenta as suas ideias. É sobretudo na forma como as transmitem e executam que reside a grande arte da complexidade de viver numa sociedade. Num mundo marcado por uma crescente instabilidade, a distinção desta dualidade na forma de atuação influencia a decisão de cada um dos agentes, com profundas repercussões no funcionamento de economias.

Intimamente ligados ao tema das guerras, ou dos conflitos geopolíticos, um novo termo ao serviço da linha de combate adotada pelos países, estão as cadeias de abastecimento, o fluxo de capitais e as redes logísticas que se estendem por múltiplos continentes, atravessam etnias, religiões e nacionalidades. Qualquer ponte de perturbação despoleta uma reação em cascata que raramente é resolvida na sua origem. É neste momento, no de maior insegurança e incerteza, que surgem as narrativas ligadas ao protecionismo económico, que traz enormes desvantagens para as ligações de todos os agentes macroeconómicos, essenciais ao desenrolar de atividades conectadas. O incentivo à produção interna e à sustentabilidade de cada país é uma das vertentes positivas deste modelo. Contudo a história prova-nos que estas atitudes apenas fragilizam a especialização produtiva e as vantagens comparativas, que desaguam num decréscimo da qualidade de vida da população.   

As dinâmicas de mercado podem ser compreendidas através de uma lógica entre três termos: produção, distribuição e consumo. De que me serve o trigo para o pão se depois ninguém o produz. De que me serve o agricultor se depois ninguém lhe compra o que produz. A atitude económica deve ser de proatividade, de procura pelo negócio, pelo cliente. Toda esta circularidade resulta numa maior redução de desigualdades, numa concorrência saudável e no crescimento de um mercado sustentado no custo de oportunidade, conceito fulcral no empreendedorismo. As consequências a curto prazo são, em muitas ocasiões, claramente penosas num investimento sólido. Mas é na arte do risco, de partir para o desconhecido, que projetos outrora sem horizonte se tornaram líderes internacionais, emergindo em nichos apelidados de improváveis.

O prolongamento do conflito ucraniano constitui um exemplo paradigmático de como os conflitos geopolíticos influenciam a nossa vida, por muitos quilómetros que nos separem do campo de batalha. O barril de Brent não atingia valores tão elevados como se viu no início desta semana. Ultrapassar os 100 dólares não se torna, de todo, o valor mais preocupante. São as oscilações diárias, a volatilidade a que os mercados estão sujeitos que provocam uma retração externa, um abrandamento no investimento produtivo e uma atividade especulativa significativa nos mercados. Em contrapartida as ajudas passam o seu foco para o contexto interno, tal como acontece quando temos um problema familiar.

Os níveis de consumo interno em tempos de crise tendem a ultrapassar claramente o que era esperado numa situação de calamidade. Com isto não quero dizer que sofre um crescimento firme, apenas refiro que o medo se apodera de cada consumidor e fá-lo voltar à prudência e a uma realidade sofrida e menos supérflua. Pequenos negócios- mais tradicionais- readquirem um protagonismo num cenário em que grande cadeias de abastecimento, tal como as detentoras dos hipermercados (o retalho fundamentalmente), transferem a pressão inflacionista para os seus produtos e sabem que os resultados não serão afetados como noutros setores.

O preço do cabaz alimentar subiu consideravelmente. Mas dificilmente as pessoas deixarão de comer por causa deste impacto. Sendo um bem primário, os negócios aproveitam-se desta situação, chamada lei da oferta e da procura. O nível de vida sobe consideravelmente, seja em Portugal ou no Luxemburgo. Mas as diferenças na forma como é absorvida pela população é totalmente diferente. A integração dos setores, a coesão e as ligações externas são um suporte dos quais muitos países não são capazes de prescindir. Por cá essa estratégia nunca foi usada, não por falta de recursos, mas sim por uma enorme aversão à gestão.

A prosperidade das nações, a riqueza das nações, como disse Adam Smith, não nasce da benevolência alheia, mas sim da capacidade cada um de mostrar o seu valor, individualmente ou coletivamente. É na articulação de interesses que tornamos o funcionalmente social eficiente, que melhoramos o bem-estar e as bases para novas gerações crescerem num espaço democrático, livre e com acesso a uma educação, a uma saúde e a um lar onde possam criar boas memórias que levarão para a vida. No entanto, esta lógica parece não querer ser compreendida, sobretudo quando a máquina Estado se revela, não raras vezes, uma hábil gestora e manipuladora de interesses particulares, disfarçados de interesse público.

Gustavo Magalhães

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