Viagens sem rota
Os viajantes têm diferentes interpretações
do mundo, seja pelas suas convicções, seja pela forma como organização as suas
viagens ou então pelas experiências que dizem alcançar em cada lugar por onde
passam. E a liberdade de escolher onde se vai, com quem se vai e por onde se
vai é uma das formas mais marcantes de usarmos um “modus operandi” que muitas
vezes nem sabemos que possuímos: o de reagir sem tempo para pensar e seguir a
boleia de um instinto que, de outra forma, dificilmente se revelaria.
Estarmos por nossa conta é um debate
muitas vezes contraditório. Para nos guiarmos pelos meandros de um mundo
recheado de imprevistos, de mentes perversas, de inveja, de soberba e de
ganância, é necessária uma grande força mental, uma frontalidade e uma
personalidade capaz de se adaptar, capaz de resistir e de ultrapassar os dogmas
criados pela pressão social. E sim, para nós, jovens, este é sem dúvida o
grande desafio para os próximos anos. Caso contrário, os problemas continuarão
a surgir e as suas consequências, cada vez mais dolorosas e imediatas a nível
mental, poderão comprometer o futuro de uma geração já tão exposta a outros
obstáculos.
Educar não passa apenas por ir à escola, por ter
boas notas ou por entrar no curso com que nos comprometemos. A arte de
relacionar, de falar, de sentir, de expressar, de compreender, de dizer não e
de até colocar um travão quando os limites são ultrapassados são lições que não
se explicam num quadro branco. São processos morosos, progressivos e, por
vezes, cruéis. Os seus resultados e benefícios são frequentemente longínquos,
exigindo sacrifício e capacidade de superação. Ainda assim, assistimos a
um culto da aparência e a uma omissão da verdade, a uma negação da realidade.
Porque mais do que nunca, quem nos comanda são as perceções.
O tema das redes sociais surgiu de forma
pertinente no espaço público. Países como a Austrália já proibiram o seu uso a
menores de 16 anos, sendo a lista de restrições cada vez mais alargada. Cerca
de 5 milhões de perfis já foram apagados durante o processo e quem infringir a
lei enfrenta consequências. Na Dinamarca ou em França, os governos tendem a
repensar esta forma de atuar fruto da escalada exponencial da dark web e
das tentativas dos jovens de contornar as regras.
Por cá, o projeto-lei do PSD foi aprovado
na Assembleia pelo bloco central- PS e PSD- fruto da preocupação com a saúde
mental dos jovens, como os seus comportamentos de risco e com um vício moderno,
mas profundamente nefasto. Ter redes sociais é, mais do que uma escolha, quase
uma necessidade: permite informar, comunicar, encontrar interesses comuns e
aproveitar o presente. No entanto é também nas entrelinhas que reside o risco,
a instrumentalização, o populismo e a demagogia- fenómenos que alimentam
conflito, facilitam crimes e fragilizam cada vez mais esta geração.
Ouvir quem é afetado neste ponto é uma das
medidas mais importantes a tomar. Não calar os jovens, dar-lhes voz para
exprimirem as suas opiniões, é talvez a única alternativa viável para os
orientar sem lhes impor um caminho. Cabe aos países, tal como Portugal, não
apenas legislar, mas também ir compreendendo como é que a regulação é feita e
caso os resultados não sejam atingidos, voltar atrás.
Proibir ou restringir pode não bastar — é necessário educar, dialogar e
acompanhar. Porque uma geração que cresce sem ser ouvida não deixará de
procurar caminhos; apenas o fará sem mapa, sem apoio e, muitas vezes, sem rumo.
E é neste ponto que deixamos o grande desafio para os próximos anos,
especialmente no plano educativo, onde poderá estar o verdadeiro risco a
ser tomado.
Gustavo Magalhães
Comentários
Enviar um comentário