A queda com desejos de mudança
Votar por exclusão de
partes é como escolher a camisola que nos assenta menos mal. Desde da última
vez que refleti sobre a atividade política e económica do mundo, muitos
acontecimentos de extrema importância estiveram na discussão no plano nacional
e internacional. Um deles prende-se com a histórica derrota de Órban e a
categórica vitória de Peter Magyar nas eleições legislativas da Hungria, numa
mobilização considerável de um povo exausto da opressão e sobretudo do
autoritarismo que muito prejudicou o nível de vida daqueles que tentavam fazer
do seu país um lugar melhor.
Os números são bastante esclarecedores: 53% escolheu o líder do mais
recente partido húngaro, o Tisza, liderado pelo homem forte do sistema que se
divorciou do derrotado da noite, depois de vários anos a acompanhá-lo. Pouco
menos de 40% manteve-se do lado do autocrático Órban, que prontamente no dia 12
de abril deste mês comunicou o seu falhanço eleitoral. Embora esta campanha
tenha assentado, pelo menos do lado do Fidesz, numa troca de argumentos virados
para o lado pessoal e para a violência verbal, o advogado de 45 anos e
indigitado primeiro ministro nos primeiros dia de maio conseguiu não só captar
todas as faixas etárias, como expor as fragilidades e os verdadeiros dados de
políticas protecionistas, elitistas e viradas para um retrocesso social enorme,
nomeadamente em questões culturais.
Volvidos 16 anos, as pensões não aumentaram. O custo de vida subiu, os
salários mantiveram-se baixos, as pequenas empresas lutavam para sobreviver
enquanto o núcleo de duro de Órban enriquecia. Donos de mansões na capital
Budapeste, de jatos privados, de multinacionais a quem eram destinados todos os
concursos públicos de prestação de serviços ao Estado, a "gente do
sistema" catapultou a sua vida, hipotecando a vida de muitos milhões de
húngaros. Travou lutas sociais e batalhas sem nexo, vivendo igualmente períodos
de inflação altamente nocivos para aqueles que tentam começar uma vida. A
emigração subiu e a imigração desceu, motivando a rutura de serviços como
educação e saúde, fruto da falta de mão de obra. Os setores mais desenvolvidos,
nomeadamente ao nível da indústria exportadora de automação e alguma startups
de desenvolvimento sofreram choques com a perda de talento jovem, graças às
condições oferecidas por um governo iliberal e focado em cumprir a sua
agenda.
Os custos a nível europeu foram também elevados durante a permanência de
Órban no poder. A não aprovação de apoio militar à Ucrânia, os obstáculos
criados à adesão desta à UE ou então o pacote de sanções à Rússia chumbado pelo
país com o maior índice de corrupção foram golpes duros, daí Ursula von der
Leyen ter dito que, mais do que as políticas internas, a Hungria tinha voltado
à Europa, pensando inclusivamente nos desenvolvimentos internacionais e nos
conflitos armados que surgem cada vez mais repentinamente.
Naturalmente que todos ficamos satisfeitos pela saída de um déspota de um
país que deve aproveitar as suas potencialidades e cooperar- mais do que nunca-
numa União Europeia fragilizada pelo plano americano e russo. Mas o que mais
amedronta é não só a enorme mudança que Magyar terá de levar a cabo para
devolver a segurança e a estabilidade a 10 milhões de pessoas, mas sim a
esperança que terá de ser recuperada a uma população mais velha do que nunca,
reerguendo a vontade jovem.
Para além de tudo isto, resta-nos concluir até que ponto o tempo passado na
administração de Órban poderá condicionar o seu pensamento político e o seu
plano governativo. Em relação a temas como imigração e Ucrânia, ainda paira uma
grande dúvida sobre a postura de Magyar. Resta-me, como defensor da democracia
e como europeísta, depositar as minhas esperanças no conservador liberal que
ousou quebrar quase duas décadas de decadência húngara.
Gustavo Magalhães
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