Vontade de fuga

 


Vontade de fuga

Fugir não é necessariamente um sinal de cobardia perante uma situação desconfortável, ao contrário do que muitas vezes se faz crer. Todos precisamos de um espaço só nosso, longe das imposições e das vontades alheias, sem qualquer tipo de pressão para que sejamos algo que não queremos ser. Perante as declarações e as intenções dos mais recentes protagonistas do plano internacional, não admira que cada um deseje, por momentos, afastar-se deste espaço comum.

Os governos parecem descontrolados. Frases como “uma civilização inteira morrerá esta noite” não podem passar em claro numa altura em que assistimos a conflitos em diferentes latitudes, que muito prejudicam não só os próprios habitantes diretamente envolvidos, mas também aqueles que deles estão distantes. 

Acordados de um conto que parecia confinado aos locais remotos de um mundo "perdido", os europeus constataram que de facto a situação não dá tréguas. As contas ao fim do mês complicaram-se, a distribuição de combustíveis passa uma enorme dificuldade, sendo o consumidor comum incapaz de acompanhar preços inflacionados. 

As palavras passam, portanto, por um crivo cada vez menos restrito e exigente. Ensinaram-nos que, antes de falar, devemos ponderar bem aquilo que dizemos- pelas consequências que isso pode trazer para a nossa reputação, para o espaço onde vivemos ou então para as pessoas que nos rodeiam. 

Mas infelizmente relativizou-se durante anos esta responsabilidade, principalmente um discurso ligado ao facilitismo moderno e a determinados movimentos que defendem a total expressão do que sentimos ou pretendemos. Porque censurar a palavra de muitos pode parecer anti-democrático, mas com base no que assistimos diariamente, sem dúvida que seria um excelente instrumento de controlo de apaziguamento de um clima que se torna progressivamente insustentável.

Ficamos, assim, suspensos nas nossas vidas. As instituições limitam-se muitas vezes a derrubar obstáculos criados por conflitos, a retaliar medidas em vez de transformar verdadeiramente os sistemas sociais. Negoceia-se demasiado e concretiza-se muito pouco. Falta ação visível por parte de quem governa, que responda com sucesso a quem trabalha, a quem luta para sobreviver num pântano repleto de traições e de hipocrisias. 

Servir o interesse pessoal, por mero capricho, é uma das atitudes mais insensíveis e infantis que as sociedades modernas enfrentam. Faltam estadistas- faltam figuras como Merkel ou Tatcher- que impunham a serenidade e o respeito necessário às alterações que toda a população deseja.

Cortar, de forma abrupta, relações nevrálgicas para a nossa estabilidade é uma atitude muito pouco prudente nos dias de hoje. Mas será escusado dizer que, fruto da manipulação de que países da NATO têm sido vítimas, a nossa condescendência para com comportamentos de despotismo tem de acabar. 

Necessitamos de uma resposta firme, coesa e consciente, capaz de devolver o bom senso a um sistema que deveria liderar pelo exemplo. Se agirmos de forma dispersa e sem o sentido de comunidade, tornar-nos-emos facilmente vulneráveis perante quem ambiciona tudo dominar- mesmo que pelo caminho tenha que se destruir tudo o que, com suor e lágrimas, se edificou.  

Gustavo Magalhães

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