Apertadamente só (parte 2)
A
rua de dois sentidos
Curiosamente, ao avistar a serra que me
rodeia no momento em que escrevo, fui relembrado dos tempos das aulas de
história- disciplina da qual nunca fui grande adepto, apenas tendo uma grande
curiosidade pelos assuntos que ela tratava, esses sim bem mais entusiasmantes.
Um desses temas que sempre regressava ao
longo do nosso percurso escolar era o das Cortes. Muitas vezes comparadas ao
parlamento atual, representavam um modelo rudimentar de representação política
— bem distante da ideia de dar voz a todos. Felizmente, a História seguiu o seu
rumo e evoluiu para algo mais justo e útil à construção de um país sólido e
desenvolvido.
A fascinante sucessão encontrada da
passagem conturbada da primeira para a segunda dinastia em Portugal foi uma das
lutas quentes do séc. XIV. A divisão entre privilegiados e não privilegiados
colocava em cheque a nossa independência, sendo esta defendida pela maior parte
da população, que naturalmente não pertencia à elite. Ora após uma tremenda
pressão social, D. João I, Mestre de Avis, foi aclamado rei de Portugal, para
bem da nossa nação.
Perguntar-se-ão neste momento o que tem o
meu relato histórico (pouco fiável, diga-se de passagem) a ver com o tema da
última semana. A pressão em que cada um de nós caiu é algo do qual dificilmente
escapamos nos dias que correm, por muito independentes intelectualmente que
possamos ser, pelo estado de indiferença que demonstremos face “à corte” da
sociedade atual, as redes sociais.
Como ontem, hoje e amanhã, há quem continue
com a pressão de lutar pela sua voz e pela sua dignidade. Um bom exemplo disto
é o Ezequiel, que passou a fronteira, caminhou horas a fio ou foi transportado
em condições desumanas. Procura primeiramente um local de abrigo em que lhe
forneçam alimento que o recomponha. O problema é que as filas continuam quase
tão grandes como quando o Ezequiel partiu para cá. As respostas são escassas,
as ajudas são poucas e preciosas, a burocracia é chata pois é, é o que temos.
As dificuldades a suprimir são desumanas quase. Mas os que nos move a todos é a
humanidade e a certeza de valores que nos são transmitidos e que nós temos a
obrigação de transmitir às novas gerações. Damos agora para que no futuro os
Ezequieis de quem precisamos e que também precisaram de nós se lembrem da nossa
tentativa e do nosso reconhecimento da sua importância. Isto tudo seria poético
se a vida fosse inerte às vicissitudes.
A pressão de cada dia diz-nos isto. Que
devo dar as mãos em união, lutar pelo bem comum. Diariamente cumprimos a nossa
missão, lutamos pelo nosso emprego, pela nossa casa, pelo nosso exame, pelo
alimento para pôr na mesa. Controlamos aquilo que ainda podemos tentar
controlar, embora por vezes seja difícil. De seguida, abrimos os braços e
lutamos por outros, corremos nadamos e só não voamos porque é mesmo impossível.
O que nos vendem nem sempre é de qualidade, barato e duradouro, embora nos seja
dito à partida.
Os governos têm discutido e argumentado
para o controlo- e não para o trancar com um cadeado- das nossas fronteiras.
Para uns é visto como um ato lúcido, de inteligência e de sensatez face à nossa
realidade. Para outros é uma medida que fere a nossa identidade e o nosso
humanismo. Para alguns (que começam a ser muitos), é insuficiente, um ato de força
medíocre e que exige ainda mais ação pois não assegura a continuidade da
linhagem “de bem”.
A pressão não pode descontrolar-nos desta
maneira, influenciar-nos assim. Prejudica quem tentamos ajudar e altera a nossa
vida. Entrega-nos a um espírito de revolta e de ânsia, alimentando também um
paraíso de dogmas e de desconhecimento da forma como os mercados evoluem e da
realidade de quem trabalha, insurgindo-se contra a hierarquia social, pilar
fundamental do Estado de Direito.
Impedir que mais pessoas entrem não é, por
si só, um atentado à essência humana. É precisamente a pensar nelas que temos o
dever de decidir com ponderação- a chamada responsabilidade. Caso
tal não seja feito, corremos o risco de deixar de ajudar quem cá está- e de
falhar com aqueles, como o Ezequiel, que procuram apenas uma segunda oportunidade.
Gustavo Magalhães
Comentários
Enviar um comentário