Inverno de desencantos
Inverno de
desencantos
Andamos todos escondidos. Chove há demasiados dias
consecutivos, os ventos não dão tréguas e a humidade insiste em impregnar-se em
tudo. Entretanto, vive-se uma calamidade em determinadas regiões do país e o
pior é a ausência de consensos sobre as medidas a serem tomadas. Enquadramos,
assim, esta época, ora como um marco no longo e doloroso inverno, ora como um
tempo de reflexão e de recomeço para outros.
Todos somos portadores de projetos. Uns encaram-nos com um
rigor quase obsessivo, investindo em esforço e imaginação, outros limitam-se a
concretizar aquilo que lhes é dado. À nossa maneira, descobrimos sempre uma
forma de avançar quando nada parece querer dar-se a nós, ou quando a criatividade
se esgota, por mais abundante que seja. Janeiro atrás de janeiro, ninguém
nos pode arrebatar essa capacidade de adaptação e persistência. Após um início
de 2026 marcado por promessas incumpridas e desafios por enfrentar, emergem
tempos de expectativa e falta de rumo.
A estabilidade política, finalmente, chegou. Belém já
conhece o seu próximo inquilino, a Assembleia apressa-se a apresentar leis e
iniciativas e as empresas recompõem-se gradualmente, fechando ainda resultados
anuais e antevendo já o primeiro semestre. Na administração interna, Maria
Lúcia Amaral vergou-se ao inevitável. Uma comunicação macarrónica e a falta
total de bom senso conduziram-na à saída de um governo, para seu próprio
benefício. Porque o país também fica naturalmente a ganhar, tal como expressei aqui.
No plano internacional, a incerteza face ao que vai
acontecer não pode dar azo ao relaxamento por parte dos aliados americanos, sobretudo
pela imprevisibilidade que caracteriza a administração norte-americana. Dar o
"dito por não dito" ou refutar caprichosamente factos sobre uma
violência desumana praticada pelas forças de segurança em protestos contra
fluxos migratórios e as suas políticas são práticas comuns de quem,
aparentemente, parece não ter o controlo do seu próprio ambiente interno.
Nas conversas de bairro, a chuva serve de desculpa para
quase tudo. Simultaneamente, sente-se o desespero de quem suporta custos,
investe e não obtém o retorno necessário para alcançar os resultados
pretendidos. O mercado responde com lentidão melancólica, torna-se incómodo e
frustrante. Faz-nos lembrar os serões de domingo à tarde nas marginais
portuguesas- os carros andam lentamente, como se contemplassem o relógio à
espera das 17h para regressarem às garagens, de onde sairão para repetir o
mesmo ciclo daí a uma semana.
O que observo é que se consome menos. Sai-se menos,
arrenda-se menos, compra-se menos e fala-se menos. Uma calma, que preocupa. Porque,
outrora, o silêncio significava trabalho árduo, dedicação e preparação para a
nação. Hoje, a tranquilidade do quotidiano tornou-se frágil, quase vulnerável à
indiferença e ao cansaço coletivo. Um vazio que espera ser preenchido por algo
que dê sentido aos nossos dias.
Janeiro passou, levando consigo promessas intactas e
projetos por iniciar. Resta a sensação de suspensão, como se o país respirasse
fundo antes de retomar o seu passo- e nós com ele. É no intervalo entre o
prometido e o realizado que se revela a verdadeira face do quotidiano. Porque é
neste compasso que se aprende a valorizar não apenas o que se conquista, mas
também a serenidade de atravessar dias cinzentos, despidos do ímpeto que nos
move, mantendo a eterna chama da esperança que nos enche a alma. Assim vamos
nós, Inverno.
Gustavo Magalhães
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