"A-Venturas" deprimentes

 



Vivemos tempos de celebração. Chegou aquela altura em que os grandes “hits” dos anos 70 e 80 começam a completar quatro e cinco décadas de existência. Sucedem-se referências em jornais, “sites” e revistas musicais relativamente a uma das eras douradas da produção artística e da afirmação cultural de uma geração brindada com uma diversidade que será bastante difícil de alcançar. Num tom nostálgico de quem não os viveu, mas que gostava de o ter feito, assinalo os 40 anos do lançamento de um dos álbuns mais satíricos dos “The Smiths”, o notável “The Queen is dead” que muito furor provocou em meados de junho de 86.

Falar da arte é também mencionar o estado social de um país. A crítica por mais mordaz e sagaz que muitas vezes nos pareça, é quase sempre prato principal. Comummente associada à vela que nunca se apaga, a esperança é um dos incentivos à produção e à concretização humana. Os diálogos e consensos assentam sempre numa base de confiança depositada na outra parte, nomeadamente quando valores nacionais estão em discussão. Dar o dito por não dito, propor medidas irreais que apenas alimentam sonhos demagogos e fantasias pueris apenas satisfazem necessidades circenses que, muito provavelmente, conduzirão a população a um triste fim.

O que se viu durante a passada quinta feira foi, para muitos, uma surpresa. Humildade, maturidade, transparência e algum bom senso por parte da extrema direita. Não era a sua proposta, a sua visão, a sua reforma- o que não espanta minimamente os mais atentos, pois o vazio ideológico do Chega torna-se confrangedor quando comparado com os seus parceiros políticos europeus como o VOX, Rassemblement ou AfD. Ventura afirmava, com o seu discurso prepotente e altivo, que votaria ao lado dos liberais e dos sociais democratas na proposta revista e alterada pela ministra do trabalho, a Reforma Laboral.

A saúde da segurança social é um dos casos mais delicados do nosso sistema de finanças públicas. Cortar pensões é uma medida injusta- porque, de facto, existem idosos que ganham miseravelmente, mas também um autêntico suicídio político. Os abonos, os subsídios e os complementos, mesmo que insustentáveis e despropositados, ainda ganham eleições, por muito que nos custe admitir, e o populismo serve-se deles para cativar franjas da população descontentes e altamente manipuláveis.

Montenegro afirmou, ainda antes de ser eleito primeiro-ministro, que se demitiria caso um dia diminuísse as reformas dos portugueses, atitude louvável. Entretanto, pede-se uma diminuição da idade da reforma como matéria de troca. Mas por onde começar se temos um buraco financeiro de mais de 220 mil milhões de euros, equivalente a 10 PRR’s? Como argumentar a favor desta medida se continuamos a ter uma população mais envelhecida, famílias menos numerosas e uma péssima gestão patrimonial? Endividar o Estado parece a única maneira de governar um país, sobretudo se os radicais tiverem saudades de Sócrates e dos duros anos da Troika, que tanto criticam, mas que acabam por querer copiar.

O banco de horas, as licenças parentais, o “outsourcing” ou a não necessidade de reintegração por despedimento ilícito ficam pelo caminho. Não por falta de cedências, de responsabilidade, de coerência ou de diálogo. Caem porque são impopulares a curto prazo, porque permitem crescimento sustentável e gradual, ao invés de se atirar, à boa moda portuguesa, dinheiro para cima de autênticos berbicachos sem qualquer critério. O socialismo, a extrema esquerda e a extrema direita deram as mãos, fizeram o espetáculo da choradeira da CGTP e abraçaram, mais uma vez, o imobilismo. Se recuarmos 40 anos, continuamos a viver exatamente os mesmos dramas, as empresas continuam sem conseguir pagar aquilo que deveria ser pago e o “grande capital” continua a ser encarado, infantilmente, como um bicho papão.

Começar com uma das grandes bandas da música britânica e acabar com a pequena e melancólica “a-ventura” é um paradoxo com qualquer coisa de irónico. “There is a light that never goes out” não é apenas uma música, mas sim uma mensagem sussurrada na escuridão. Continuo a acreditar nela, a acreditar numa luz que não se extingue, uma claridade discreta que nos blinda contra o oportunismo, onde residem sérias ameaças à liberdade de cada um. Habituemo-nos, então, a toda esta paisagem política e ouçamos os “The Smiths” uma e outra vez, como quem acende uma chama numa noite demasiado longa. Porque há músicas que não nos tiram as adversidades, mas que nos ensinam a ultrapassá-las.

Gustavo Magalhães

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