Quase ondas de verão
Paira no ar uma imensa dúvida. Estaremos em letargia? Definhamos assim tanto com o aproximar do calor e das metas que ainda temos de atingir. Será que nos tentamos refugiar no argumento de que o verão já está à porta e que por isso temos que parar e deixar o tempo correr? Ou devemos simplesmente enfrentar, sem remorsos ou inseguranças, obstáculos que teimam em obstruir, ano após ano, a nossa tão desejada "onda de verão?"
A época balnear já abriu, as praias e os seus protagonistas já voltaram ao espaço público, referindo os perigos do mar, das ondas de calor e dos raios solares que nos obrigam a renovar a velha aliança com os fatores 50 desta vida. Retomamos o turismo de massa, os ingleses, os franceses ou os holandeses invadem Albufeira, enquanto os portugueses aguardam pacientemente pelo 15 de julho ou pelo 1 de agosto para retomarem a invariável expedição em tom de peregrinação pela A2. Mas até lá temos que aguentar, cumprindo o ritual das secretárias, das fábricas e dos exames, porque é aí que reside o estado de espírito com que chegaremos ao verão.
O ócio tem algo de profundamente reconciliador. Alegres, podemos protestar, vingar-nos das ordens superiores, sair à rua, jantar numa esplanada, ir a romarias e a festas populares, ou então contentarmo--nos com os infindáveis jogos de futebol que se avizinham. As filas continuam, sejam para entrar ou para sair, as leis começam a ganhar forma e as decisões geopolíticas adiam-se tal como aqueles encontros esporádicos que terminam sempre com a célebre frase: "Temos que combinar algo".
Por vezes faz bem deixar os temas quentes de lado. As reformas, os impostos, a justiça, a saúde ou as politiquices têm um ar maçador, de quem gosta de sofrer e de mostrar a triste realidade do mundo. Olhamos e vemos um vazio enorme, porque não sabemos bem se estamos a fazer o que queremos. Apenas trabalhamos por soundbytes, por impressões daqueles que já passaram por tal e agora nos aconselham. Partimos ou permanecemos? Falamos ou calamos? Rimos ou choramos?
As consequências deste fechar de ciclo que sempre foi o verão são, mais do que nunca, uma grande paisagem de nevoeiro. O sol parece querer aparecer, mas as nuvens inibem-no, condicionam-no. Talvez a introspeção deste texto seja sinal de cansaço por aquilo que se fala e por aquilo que não se faz. Produtos de uma encomenda homogénea, recusamos a diferença por parecer ridículo. Mas afinal, o que seria de nós sem a diversidade? Um bando de pardais que disputaria o mesmo alimento e acabava por se extinguir.
Junho acarreta consigo um começo sempre feliz, de descontração e de fins de ciclo. A última vez, mesmo que por um ou dois meses, é um clichê moderno. Mas sem saudosismos e nostalgias, o que por aí vem merece respeito, dignidade e muita entrega. Porque é no meio das incertezas que encontramos as grandes decisões e optamos por direções promissoras. Agarrar o futuro não é, de todo, sinónimo de desespero. Apenas um puro ato de lucidez e de inteligência, qualidades que, demasiadas vezes, parecemos dispostos a abandonar.
Gustavo Magalhães
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