Curtos ciclos, longas esperas



O ruído termina com a saída de protagonistas pouco amados. Na verdade, lamentamo-nos, mesmo quando saem vencedores, do discurso pobre, oco e enfadonho do líderes que se multiplicam e que permanecem cada vez menos tempo nos cargos onde juram mudar a vida coletiva do seu povo.

No entanto, perguntar-se-ão o que é que tal tem de relevante para a discussão em torno dos destinos políticos dos países Europeus. Keir Starmer fora envolvido primeiramente numa nomeação de um embaixador nos EUA cujo nome constava nos ficheiros de Epstein. Para além disso, a derrota nas eleições autárquicas por parte do “Labour”, partido Trabalhista liderado pelo primeiro-ministro cessante condicionou ainda mais a governação de Starmer que não resistiu a uma forte pressão interna e por isso abandona o segundo maior cargo político britânico dois anos após ter devolvido o poder à ala esquerda da câmara dos comuns.

Sendo um fenómeno preocupante e cada vez mais recorrente, a subida apoteótica dos ideais radicais, sobretudo de direita, afeta igualmente um dos últimos bastiões do conservadorismo liberal da Europa, o Reino Unido. O Reform-UK, liderado por Nigel Farage, conquista sucessivamente lugares aos seus concorrentes de direita, os conservadores, mas também se apodera de eleitorado tipicamente de centro-esquerda que dera, há pouco mais de 24 meses, uma maioria a um partido afastado desde 2010, sob o comando de Tony Blair. O peso da alta dívida pública, as taxas de esforço preocupantes cada vez que é necessário recorrer a crédito externo cultivaram alguma lamentação após um primeiro trimestre que se previa estável e de recuperação para as “terras de sua majestade”. Dados apontam para uma contração empresarial, um aumento do desemprego e uma desaceleração precoce do setor privado, sobretudo da indústria, que perde mercados importantes como o asiático, cada vez mais autossustentável e consistente.

A desvalorização da libra mantem cada britânico mais apreensivo. A guerra no Médio Oriente e a inflação crescente fizeram com que Starmer sofresse várias críticas no seio do seu partido. Nem sequer Gordon Brown, nomeado como consultor financeiro do governo, salvou uma queda que se anunciava pela preponderância que Andy Burnham, membro da “soft left” trabalhista- um socialismo digamos- que venceu de forma imprevisível e categórica a eleição em Markfield, assumiu no partido e que lhe permite agora posicionar-se como próximo líder dos destinos ingleses.

Afastando-me das especificidades do regime britânico, dotado de uma complexidade fascinante e bastante recomendável para os entusiastas, o ponto de reflexão gira em torno da efemeridade das lideranças atuais. A instabilidade moderna pressupõe alguma imaturidade social e um relançar de uma guerra de egos cada vez maior. Descontentamentos face a uma inércia generalizada do Ocidente fazem com quem nos último dez anos, o Reino Unido, veja-se bem, caminhe para o sétimo primeiro ministro. França, Portugal ou Roménia exemplificam este clima de desgaste rápido que os executivos sofrem, motivando a chegada paulatina do populismo ao poder.

“O tempo é a moeda mais preciosa que o homem pode gastar” - eis a lição que o futuro parece ensinar-nos. Investigações, debates, votações e eleições arrastam-se não como dádivas da democracia, mas como entraves a reformas e a transformações tecnológicas que nos permitiriam acompanhar o ritmo dos blocos orientais. Os curtos ciclos impõem-se como aquelas nuvens em dias de intenso sol: se por um lado nos poupam ao calor tórrido, também nos incomodam pela corrente fria que teima em persistir.

Gustavo Magalhães


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